ENTREVISTA: Soror

21557555_1491930667561724_8749099667114171689_n“Uma coisa que costumam perguntar é: porque escolheram montar uma banda de mulheres? E o interessante é que ninguém pergunta pros caras porque resolveram montar uma banda de homens, não é? O desafio é esse.”

Durante a mini-tour da Soror (Brasília/DF) por SP, trocamos uma ideia com as manas sobre a banda, os conceitos e os desafios de ter um projeto só de mulheres na cena underground/contracultural. Saca só:

U.M.U: À primeira vista, Soror já remete à sororidade (irmandade e apoia mútua entre mulheres) como essência da banda. Como vocês veem o conceito de sororidade nos espaços feministas de hoje?

SOROR: Sororidade, pra gente, tem muitos sentidos. Tem aqueles significados conceituais e tem o que vivemos na prática. E isso pode muitas vezes ser diferente, ainda mais hoje com a internet e uma explosão de manifestações de mulheres sobre empoderamento. O conceito vai mudando de acordo com as novas vivências que as mulheres vão trazendo pros espaços, quando têm abertura pra isso. Então a primeira questão importante sobre sororidade pra gente é a gente ter voz num espaço e trazer as nossas subjetividades, o que temos de diferente da outra e não ser julgadas por isso. Sermos acolhidas na nossa especificidade por outras mulheres é um primeiro passo para sororidade. Nem todos os espaços aprenderam a fazer isso na prática, pq na sociedade patriarcal não somos ensinadas/os a acolher a diferença, e sim buscar identificações e nos aglomerar a partir delas. Isso pode ocorrer num espaço de militância ou numa banda. Se a cultura patriarcal nos coloca umas contra as outras, temos que fazer diferente e acolher nossas diferenças e subjetividades. Isso pode mudar muito nos conceitos e nas formas de fazer com o tempo.

U.M.U: Soror é um projeto experimental que escapa dos padrões do som underground/contracultural, apesar das referências marcadas. Como é o processo de composição de vocês e o que acham dos gêneros que são atribuídos à Soror?

SOROR: O processo de compor as músicas está atuando em nós a todo momento. São sons que ouvimos nas ruas, são conversas que trazem novas ideias, são outros shows que vemos e acervos de todos os tipos, na internet e fora dela. Trocamos sugestões de bandas (novas e antigas) entre nós o tempo todo e ensaiamos com regularidade. Cada uma traz uma ideia, um trecho, uma referência, um desejo. Juntas testamos e experimentamos bastante (inclusive trocando de instrumentos) até atingirmos algo que faça sentido para nós. Depois aprimoramos isso no estúdio com equipamentos mais potentes e barulhentos, o que permite que a sonoridade fale por si mesma, e as atmosferas sejam geradas.

U.M.U: Quais temáticas são abordadas nas letras?

SOROR: Vivências. Do que nos inspira simbolicamente e na prática. Essas construções de nossas experiências e designações de gênero, nossas resistências, o devir-mulher. As letras falam da dor, da ferida de viver como vivemos, no corpo e na condição que vivemos; a dor das relações doentias que vivemos. Fala sobre morrer. Mas também fala sobre nascer, sobre renascer no meio do caos. As letras falam sobre não esquecer, sobre perseverar. E nesse aspecto, é empoderador também. As letras são como um grito pra que outras mulheres – pessoas – escutem e saibam que não estão sozinhas, inclusive a gente saiba que não estamos sozinhas.

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U.M.U: Quais são as principais influências das integrantes e o que vocês têm ouvido ultimamente?

SOROR: Cada uma tem uma história pessoal de gostos e preferências musicais, políticas e estéticas. Muitas já tocaram em outras bandas e participam da ‘cena’ há muitos anos de maneiras diversas. (Isabela tocou na Kill me Pills; Clarissa tocou na Poena e Estamira; Ianni tocou na Xixi de Aranha e Dança da Vingança).
Muitas vezes essas influências aparecem de maneira mesclada, e entendemos que a liberdade de compor sem restrições criativas nos leva a entrecruzamentos e dissoluções de fronteiras de estilo. O que fazemos juntas é muito mais do que a soma das partes.
Para a vivência da soror costumamos trazer nossas porções que estão em contato direto com os sentidos, as percepções sensíveis, as realidades emocionais, xs corpxs, as naturezas e tecnologias (no plural, em sentido amplo).
Nos interessa acessar as micropolíticas das revoluções pessoais. Nesse sentido trazemos elementos de um certo misticismo que associamos à alquimia rebelde capaz de transmutar instâncias e percepções. A bruxaria e seu saber autônomo e ancestral serve muitas vezes de referência para o que criamos enquanto experiência sonora. Nossa música está diretamente relacionada com as potencialidades e aberturas da magia enquanto projeto de vida. Nossos shows são rituais e nossas músicas são como encantamentos e evocações. O som em si – vibrações dos instrumentos e vozes que ecoam através dos amplificadores – são como enxurrada, ativando lugares dentro de nós que podiam estar esquecidos ou abandonados mas que, de qualquer forma, são lugares que se mostram vivos perante o som.

U.M.U: Quais os desafios de uma banda de mulheres no cenário contracultural de Brasília? E em escala nacional?

SOROR: Uma coisa que costumam perguntar é: porque escolheram montar uma banda de mulheres? E o interessante é que ninguém pergunta pros caras pq resolveram montar uma banda de homens, não é? O desafio é esse. Os espaços onde esse som acontece, geralmente são dominados por eles, que têm os estúdios de ensaio, que organizam os shows, que gravam discos, que têm os selos… Então o desafio é criar espaços para existirmos, seja fazendo nós mesmas, como foi a experiência do Festival Bruxaria que organizamos, seja dialogando e/ou confrontando.

U.M.U: Soror é ritualística, catártica e propõe uma imersão sonora que explora vários sentidos, tanto na execução do som quanto na performance. Ao mesmo tempo, a subjetividade é uma característica marcante na banda. Que mensagem vocês buscam transmitir quando sobem ao palco e que efeitos já sentiram da parte do público?

SOROR: Imersão é uma boa palavra. Nossos shows tem um caráter de rito, de experiência sensória que explora diversos sentidos e que se dá de maneira única, a cada vez. A música é o veículo principal para essa experiência. Cada show é preparado com atenção aos contextos que estamos vivendo individualmente, mas também coletivamente, e até globalmente. Frequentemente inserimos novos samplers ou covers de bandas que fazem sentido naquele momento. Muitas vezes fazemos alusão a algum acontecimento que nos toca e que queremos problematizar ou cicatrizar, curar. Nesse sentido nossos shows são políticos. Não há uma mensagem específica, há a formação de uma egrégora que acolhe e contém as múltiplas singularidades presentes. Nos shows podemos exercer aquilo que entendemos como sendo a soror: uma coletividade amorfa, inclusiva, que diz respeito a nossa realidade imediata, mas que também invoca passado e futuro, nossas ancestrais e crias. A soror não se restringe às quatro integrantes atuais, ela perpassa os tempos e geografias, ela atua como vortex. Os shows são momentos em que a diferença entre banda e ‘público’ deixa de fazer sentido.

U.M.U: Quais os planos da banda para essa nova fase?

SOROR: Temos alguns convites para esse segundo semestre e estamos contentes em tocar com outras bandas. Acreditamos em shows que façam sentido para quem está organizando, para quem está tocando, para quem está cozinhando, alimentando, limpando e mantendo os espaços. Daí estarmos mais envolvidas com eventos de pequeno porte, auto gestionados, anti capitalistas. Nos sentimos mais convocadas a eventos que proporcionem sensibilidades feministas, queer, antiracistas, que gerem situações em que corpxs e experiências de vida dissidentes se sintam plenxs e exaltadxs. Sempre a partir dos afetos.

Em Julho estivemos em São Carlos (Pé de Macaco) e São Paulo (Distúrbio Feminino) para shows muito especiais. Estamos com vontade de regravar as músicas antigas desde que a Clarissa entrou na bateria e de gravar as novas músicas também. Queríamos muito lançar algo em vinil e também quem sabe um split com outra banda, e estamos abertas à convites.

 

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