HEADBANGER E MÃE – Entrevista sobre maternidade e underground com Marly Cardoso (ex – No Sense)

Muito se fala sobre a luta para dar às mulheres o direito de decidir se quer ou não levar uma gravidez à frente (o que é legítimo). No entanto, uma das temáticas que acaba sendo deixada de lado nos debates do underground, é a condição mulher que é mãe. Por isso, resolvemos conversar um pouco com algumas mulheres de bandas, produtoras e mesmo as que fazem parte do público, para entender um pouco mais sobre o as dificuldades que elas enfrentam em se manter ativas no subsolo e, é claro, sobre as delícias e aprendizados que as crianças trouxeram à vida dessas mulheres. Iniciamos a entrevistas com uma das minas que mais inspiram outras minas no meio extremo, Marly Cardoso, ex-vocalista da No Sense e mãe das encantadoras Melissa e Ingrid.

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UMU – Há um vídeo antigo do No Sense, em que você estava cantando grávida da sua primeira filha, que hoje está uma moça linda, acredito que em 1993. A banda iniciou as atividades em 1990 e estava firmada como um dos principais nomes do grindcore nacional naquela época. Como foi para você a quebra do momento em que você deixava de ser a Marly, frontwoman de uma banda extrema (além das questões profissionais), para se tornar mãe?

13164300_640121849471190_6861803871880096138_nMarly: Pra mim foi um grande choque, um momento muito difícil, porque a banda ia muito bem, com várias propostas de shows, inclusive fora do Brasil, propostas de selos, e tivemos que parar tudo. Nem preciso dizer que foi uma gravidez não planejada. Por conta dela tive que dar uma parada em tudo. Inclusive nos estudos, o que acabou comigo! Combinamos que pararíamos por um ano após o nascimento, uma vez que fiz todos os shows agendados, o último foi aos 7/8 meses, só que passado esse ano todos se dispersaram.

UMU – O No Sense ficou em um hiato durante alguns anos. A questão da maternidade influenciou essa decisão de pausa?

Marly: Não, porque como eu disse acima o combinado era de voltarmos após um ano. Só que após um ano todos se dispersaram, montando outra banda, casando, seguindo suas vidas. Eu me vi sozinha por um bom tempo e perdendo minha identidade porque estava só sendo a Marly “mãe”. Quando a Mel estava com dois anos, um amigo me indicou pra fazer teste em uma banda que estava começando. Fui fazer e me identifiquei. E assim entrei para o Chesed Geburah, banda esta que me orgulho de ter feito parte. Então, embora eu algumas vezes tenha ouvido dizer que o No Sense “parou” tanto tempo por minha causa, porque engravidei, não é verdade, porque depois de dois anos de dar à luz eu estava tocando de novo. Na verdade, na ocasião ninguém me procurou pra voltar. Cada um estava cuidando de suas vidas. No Sense não era mais prioridade pra eles. Eu eu vi que naquele momento não fazia mais sentido mesmo. Cada um vivia um momento diferente. Muitos anos depois começamos a nos reencontrar em shows e à medida que a amizade que foi sendo “retomada”, voltou a vontade de tocarmos juntos, então deu-se o retorno.

UMU – Sabemos que a mulher, após tornar-se mãe, acaba se afastando de bandas, enquanto integrante, ou deixam de frequentar shows para cuidar dos filhos, durante alguns anos da infância, enquanto para os pais, a rotina muda, porém em um grau muito menor que a das mulheres. Hoje vemos uma tentativa de alguns produtores e coletivos em acolher as mães e os filhos no underground. Em alguns shows há espaço kids, revezamento para cuidar das crianças, que ficam em áreas isoladas de barulho que possa afetar a audição das mesmas, e até mesmo (o mínimo) a permissão da entrada de crianças (menores de idade) junto aos pais nos locais dos eventos, dentre outras ações. Durante todos os anos em que você esteve atuante no underground, quais foram as dificuldades que você enfrentou para estar presente nos shows e ser mãe?

Marly: É complicado você querer levar seu filho pra esse ambiente quando ele é muito13164300_640121849471190_6861803871880096138_n pequeno. Essa iniciativa que você citou é muito interessante! Mas eu não usufrui dela. Contei com a boa vontade de vó, mãe, e quando podia pagar, de alguma babá. E perdi muitos shows por não ter opções. Quando o No Sense voltou, eu já tinha a Ingrid, e ela sendo muito pequena passei alguns apuros. Quando viajávamos pra perto eu deixava com alguém pro pai dela poder me acompanhar. Quando as viagens eram mais longas ele não ia porque eu tinha uma paranóia de que poderia acontecer algo e estarem os dois longe! Em qualquer dos casos sempre tinha toda uma logística envolvida. Enquanto pros demais membros era só pegar o instrumento e ir (e algumas vezes pedir licença no trabalho), pra mim era um transtorno tremendo deixar tudo “ajeitado”. E a saudade, que batia de latejar.

UMU – Você já levou as suas filhas em algum show que você se apresentou? Se sim, quais foram as impressões delas? E outros shows? Vocês frequentam juntas?

Marly: A Ingrid sempre quis assistir a um show do No Sense, mas não podia entrar devido à idade e demais implicações. Até que um dia fomos tocar em Fortaleza e pela estrutura do local acreditei que lá daria pra ela entrar… aí a levamos. Só que me enganei. Não podia. Então meus grandes amigos de lá deram um jeito e eis que ela ficou escondidinha no palco vendo o show… até hoje me emociono quando vejo uma foto dela que o pai tirou ali. Dá pra ver que esta estava bangeando. Foi demais. Ela adorou. Comentou detalhes do show. Ficou encantada. Depois foi em mais alguns em que ela é presença perto do palco, sempre agitando, cantando. Hoje que está maiorzinha (11 anos) ela freqüenta todos os shows em que pode entrar. Recentemente, também por intermédio de uma amiga, ela conseguiu entrar num festival onde o Venom tocaria. Eu também nunca tinha visto Venom (perdi um, inclusive, porque ela era pequenininha e não tive com quem deixá-la pra ir). Então eu guardarei como um dos momentos mais f**** da minha vida, ver Venom com ela, ela agitando junto comigo.

UMU – Acompanhando as suas publicações no Facebook, percebemos que a Ingrid também gosta de rock e metal em geral. Recentemente você deixou o vocal da No Sense, mas para ela, como era ter a mãe à frente de uma banda de metal extremo? Qual foi a reação dela quando você contou que não faria mais parte da banda? 

Marly: Sim, ela gosta sim e tem um gosto bem particular. Tem bandas que ela nos apresenta. Inclusive “velharias” que passamos a prestar, digamos assim, mais atenção, por causa dela, porque ela ouve muito. Ela sempre vibrou com o fato de eu tocar no No Sense. Sempre senti que ela se orgulhava. A minha filha mais velha, a Mel, sempre se envergonhou. Já a Ingrid não. Ela ia aos ensaios, comentava das músicas, cantava algumas comigo. Isso aos 5, 6 anos de idade! Quando saí do No Sense, por ser uma decisão que vinha amadurecendo há tempos, ela me apoiou, mesmo sabendo que ficaria por um tempo mal, afinal, o No Sense faz parte da minha vida e da minha formação pessoal, não foi fácil. Agora estou tocando outro projeto, e ela está sempre querendo saber das coisas. Quando os meninos me mandam uma base ela ouve junto. Recebi algumas propostas pra cantar em bandas e mostrei todas pra ela. Ela diz “vish mãe, essa não tem nada a ver com a senhora” ou “vai que a senhora vai detonar” (rsrs). Recentemente recebi uma que foi a que mais me balançou… depois que ouvimos os sons ela falou “Vai mãe! Segue a sua vida! A senhora não deve ficar parada! Essa banda tem a ver com tudo o que a senhora ouve hoje em dia. Vai” Isso faz toda a diferença!

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UMU – Para nós o underground é um estilo de vida, que vai muito além de apenas música. É contestação, é estar fora dos padrões do socialmente aceito, o que nos faz entender a diversidade. No dia a dia do convívio social padrão, como as pessoas lidaram com a sua maternidade e o fato de estar em uma banda de grindcore?

Marly: Eu sempre digo que o metal como um todo é o que me define. É o que me difere. Tenho orgulho de ser headbanger. Consegui conciliar isso com a maternidade numa boa, porque sempre fui muito independente e nunca sequer parei pra pensar no que as pessoas achavam sobre isso, apesar de estar ciente dos olhares “tortos”. O mais difícil é conciliar com a profissão. Infelizmente as pessoas ainda vêem o metal com preconceito, e na boa, tenho mais o que fazer do que ficar tentando provar pra esse povo “careta” que no metal não tem só drogado, bêbado e que não sou assim. Que minha “arte” foge dos padrões convencionais. Portanto me mantenho reservada quanto a ter banda.

UMU – Agradecemos muito a sua participação e esperamos estimular debates sobre essa pauta dentro do nosso meio. Para finalizar, gostaríamos que você falasse um pouco sobre as dores e as delícias da maternidade.

Marly: Eu que agradeço a oportunidade de falar, e até mesmo de me abrir. Meio que rolou uma catarse aqui. Das dores eu posso dizer que uma vez mãe você se transforma pra toda a vida, você se divide. Você nunca mais poderá pensar só em você. Tudo você pensará nas conseqüências sobre seu filho. Desta forma, é um peso, é uma preocupação constante. A gente se poda e muitas vezes deixa de vivenciar muitas coisas e talvez nunca tenha um reconhecimento por parte deles. Das delícias eu posso falar daquele olhar que transmite um amor sem limites, aquele carinho que você recebe num momento inesperado, aquele cuidado. Amor de filho é puro, verdadeiro e único. Não há nada igual. Um filho te dá força pra enfrentar o “infrentável”, conquistar o impossível e se por acaso, no meio da batalha você se encontrar caído e ferido, pedindo aos “deuses” pra eles te levarem porque você não suporta mais tanta dor e provação, vai ser o amor de um filho que vai fazer você levantar e enfrentar a sua dor, medo, mesmo que machucado pra valer. Depois que você experimenta isso você se pergunta “como eu puder existir tanto tempo sem isso?”.

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2 comentários

  1. Amei a entrevista e feliz de saber que Marly não está parada e tem sucessora! Rs! Toquei com a No Sense em 2012 aqui em Brasília. Foda! Faço parte da coletiva Bruxaria (toco tbm na banda Soror) e no ano passado organizamos nosso evento com um espaço kids e tentamos gerar um espaço pras mães roqueiras falarem sobre isso. Foi muito legal! Se forem continuar com entrevistas no tema, indico a Nina Puglia (mesmo nome no face) que eh produtora de eventos de música em Brasília e mãe. A experiência dela eh bem legal! 😉

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  2. Cara, que lindo, isso. Não sou pai, mas enchi os olhos d’água com a fala da Marly, que inclusive tive o prazer de vê-la cantar em Fortaleza com a No Sense. Uma das pioneiras entre as mulheres que ousaram estar a frente de uma banda de metal extremo. Deveria ser um orgulho pra todo headbanger brasileiro!

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