PUNK, PRODUTORA E MÃE – Entrevista com Tati Góis (Útero Punk e Negra Favelada)

Tati Góis organiza o fest Periféricas na zona norte de São Paulo, está à frente da banda Útero Punk, tem o projeto solo Negra Favelada, está sempre organizando atividades culturais e de contracultura e é mãe da Amélie e do Cazuza. Como ela consegue ser tão ativa na cena? Faz parte dela, é indissociável, então as crianças crescem nesse ambiente e isso é fantástico. Ela falou um pouco sobre isso tudo e ainda trouxe um pouco sobre a intersecção das questões de raça e classe e desromantizou a maternidade, trazendo os aspectos da mulher real. Leia a entrevista e conheça os seus trabalhos.

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UMU – Além de estar à frente do Útero Punk, ter o projeto solo, Negra Favelada e organizar o Festival Periféricas, você ainda é mãe de duas crianças lindas. Como é para você ser tão ativa dentro do underground e ser mãe ao mesmo tempo?

Tati: Desde de muito nova eu organizo eventos com bandas independentes, antes mesmo de ser mãe. Eu comecei com 14 anos a organizar sons na garagem da casa dos meus pais com a ajuda meu esposo – que na época era meu namorado. Tudo se dava tão naturalmente, que quando eu fiquei gravida da minha primeira filha, Amélie, eu
simplesmente continuei. Eu era muito nova, tinha 18 anos, e mesmo gravida continuei tocando eu só dei uma parada para em 2008, quando ela nasceu. Retomei em 2009, quando ela tinha 9 meses e nunca mais parei. Faz parte de mim do que eu sou fazer parte da articulação cultural.

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UMU – Recentemente você lançou no seu trabalho solo o single “Mãe Preta”, música essa muito tocante sobre a realidade das mães negras e periféricas. Você poderia falar um pouco sobre o processo de composição e a mensagem que você passou com a mesma?

Tati: Quando eu comecei a escrever a música “mãe preta” eu ainda não tinha um filho homem, tanto que o nome era “carta para meu futuro filho”. Então a música ficou guardada um bom tempo. Em outubro de 2013, um jovem estudante de 17 anos 13063353_474897036041395_8162098445724957474_ochamado Douglas Martins Rodrigues foi morto pela polícia militar aqui na Zona Norte de São Paulo e isso aconteceu um mês antes do meu Filho Cazuza Nascer. Lembro que eu comecei a sentir muito medo – um medo que só nós mães periféricas temos, medo de perdermos nossos filhos nas mãos da polícia a partir deste sentimento, eu terminei de escrever a música “mãe preta” baseada no meu medo de perder meu filho da mesma forma que a dona Rossana Souza, mãe do Douglas perdeu o filho dela. Desta forma que muitas mães periféricas perdem seus filhos de maneira diária. Fiz a música para meu filho e para o Douglas.

UMU – No festival que você organiza, o Periféricas, notamos que sempre há a presença de muitas crianças. O que você acha que falta ou que poderia ser feito nos demais shows independentes para o acolhimento da mulher enquanto mãe, para que ela não acabe sendo afastada do meio?

Tati: Nos eventos que eu realizo sempre tem presença de crianças, quando não são meus filhos e sobrinhos sempre tem criança. Acho muito bacana as pessoas levarem seu filhos para os eventos. O que eu acredito que falta nos shows? Acho que não falta muita coisa, alguns eventos feministas disponibilizam um espaço recreativo para as crianças enquanto as mães curtem o show, para mim isso vai de cada uma. Eu levo meus filhos para ver o show ter contato com a cena ver acontecer, estar ali no meio mesmo conhecendo e aprendendo. O que acontece na verdade é que nós mães já passamos o tempo inteiro sendo mães e quando tem um rolê queremos curtir, beber e estar no meio da galera, já com os filhos isso já se torna complicado. A questão é mais social mesmo, muitas deixam de participar por não ter com quem deixar seus  filhos, outras fazem como eu, aprendem a curtir o rolê de maneira mais leve menos intensa para
que os filhos possam acompanhar.

UMU – No seu trabalho, é impossível não refletir sobre as questões de gênero e vincular com as de classe social e raça. Para você, quais são as maiores dificuldades que a mulher negra e periférica enfrenta dentro do underground? E a mulher enquanto mãe?

Tati: Estas questões estão interligadas quer queira quer não, primeiro que não tem muita mulher negra na cena underground as poucas que tem a galera já considera suficiente ou nem notam que existimos. Existe a questão de você ser mulher negra e abordar justamente estas pautas e perder espaço, porque para as pessoas, você se torna chata, separatista, “racista inversa” e rainha do “mimimi”. Nisso, acaba sendo afastada dos eventos, não rolam mais convites, não vou mentir, não, falo mesmo! Tem mulheres brancas dentro da cena detonando com mina preta só porque nós não concordamos com o debate feminista sem recorte de raça e classe. Uma vez não concordando, pronto, você está fora só porque as terças feiras você não usa rosa (risos).
Em relação a ser mãe eu não tive nenhum empecilho dentro do underground, toquei grávida, organizei evento barriguda, comecei a ter contrações durante a gravação do CD da Útero Punk, mas esta não é a realidade de todas as mulheres. Eu tive disposição para isso, eu tive pessoas que me apoiaram para conseguir fazer isso, e até hoje meu esposo André sempre esteve lá me ajudando com as crianças, minha afilhada. Meus pais sempre que precisei estavam lá ajudando a segurar um e trocar a fralda do outro, enquanto eu fazia meus shows. Quantas vezes amigos e amigas da própria cena seguraram meus filhos no colo para eu poder tocar, não tem nem como contar quantas vezes isso já aconteceu, pois foram muitas. Eu quis fazer isso, eu decidir que queria que fosse assim e tive apoio. Na minha opinião isso foge do que é ser mãe isso é ser eu e eu sempre fiz isso, eu não sou só mãe.

UMU – Acompanhando suas publicações no Facebook, notamos que os pequenos Amélie e Cazuza tem interesse por música, inclusive em tocar. Como é para eles ter uma mãe em uma banda punk? Eles costumam ir nos shows em que você se apresenta?

Tati: Meus filhos gostam de música no geral, acho que eles não entendem o que é “banda punk”, para eles a mamãe tem banda, a mamãe canta, a mamãe faz rock. Quando eles nasceram eu já fazia isso. Eles cresceram vendo isso e para eles é tão normal como respirar. Amélie gosta de escrever, questionar as coisas e gosta de violões e guitarras. Cazuza gosta de barulho, bateria, meia lua triangulo, ele gosta de acompanhar a onda. Se eu começo a tocar violão ele já pega a meia lua e vem fazer segunda voz.

(Aproveitando a pergunta eu deixei que Amélie respondesse esta pergunta e escreverei a baixo, ninguém melhor que ela para responder.)

Amélie: Ué?! Normal! Umas costuram outras, dançam a mãe tem uma banda, só isso o que ela fizer eu gosto, falaram que a mãe é diferente, mas eu nunca tive outra mãe para saber.

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UMU: Obrigada pela entrevista. Ficamos muito felizes com a sua participação. Para finalizar, gostaríamos que você nos relatasse um pouco sobre as dificuldades e os prazeres da maternidade.

Agradeço por lembrar de mim para fazer parte desta matéria. Ser mãe é legal eu gosto, é difícil é sim, não vou mentir. Eu não trabalho fora desde que eles nasceram, meu mais novo tem problema de audição desde o nascimento dele. Eu me dedico à saúde dele desde então. Eu sou mãe como qualquer uma outra, mas não vou romantizar maternidade. Tem hora que a gente quer sumir, perde a paciência grita fica nervosa, mas poxa isso é normal. Como eu já comentei nesta matéria, eu tenho o apoio do meu esposo e da minha família que apoiam todos os meus projetos, realidade esta que não é a de todas as mães. Eu estou tentando mudar o mundo para que meus filhos possam viver melhor, um mundo sem machismo, racismo, homofobia e desigualdade. Estou caminhando para isso, acho que esta é a resposta mais simples que tenho para responder: Eu sou mãe, mas isso é só um pouco do que eu sou.

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