Visibilidade trans e LGBTQ+ no underground: entrevista com Karine Profana

Entrevistamos Karine Profana, uma das primeiras mulheres trans com visibilidade no underground que vem quebrando barreiras e sinalizando as transformações mais que necessárias no cenário contracultural. Ela falou um pouco sobre transfobia, sobre a experiência de transicionar em atividade e sobre como todas e todos nós podemos fazer do underground um espaço de acolhimento e identificação das pessoas LGBTQ+, fazendo jus à postura libertária reivindicada. Agradecemos a paciência e didática da Karine em expor a situação da transgeneridade em um cenário micro, mas ainda fortemente influenciado pela intolerância do país campeão de assassinatos e marginalização de pessoas trans. 

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Karine tocando na Mau Sangue | Foto: Coletivo Refuse/Resist

UMU: Recentemente você conduziu uma roda de conversa no Pé de Macaco Fest III sobre LGBTQ+ no underground, referente à participação de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis/transgêneros, queer e demais identidades consideradas “desviantes” da heteronorma. Apesar da atividade, no próprio espaço era notável a maioria cisgênera, heterossexual e branca, por mais que haja esforços para garantir a diversidade nos rolês. Você acha importante ter esse tipo de discussão nesses locais? Acredita que a visibilidade é o primeiro passo para um underground realmente inclusivo?

Karine: Acredito que não em via de regra, mas o tipo de evento organizado pela Pé de Macaco, que além de um espaço pra música underground, tem todo um caráter político, poderia ser praticado por outros organizadores de formas diversas, pois é apenas em momentos como os da roda de conversa que é possível reunir pessoas pra ouvirem e participarem de um debate com alguém que representa algum grupo que precisa expor suas demandas. Nesse caso, um grupo que ainda passa pela situação de invisibilidade, de sentimento de falta de segurança e acolhimento.

Preconceitos também existem e se amplificam porque não convivemos com determinados grupos de pessoas e não as entendemos. Música é uma forma de expressão artística, mas, no caso de certos gêneros e subgêneros, acontece um certo distanciamento, um certo elitismo ou dissociação que diz respeito a mesquinharias e até mesmo imposições veladas. O underground dita condutas quanto à maneira de se vestir aceita e o gosto por bandas que são consideradas aceitáveis e “endeusáveis” pela maioria, por exemplo. Isso quer dizer que muitas vezes alguém que chega fora dos padrões é olhado de cima. E, acima de qualquer padrão, o hetero-cis-normativo ainda se faz presente (e também combativo em certos casos) até mesmo em espaços e expressões artísticas que teoricamente têm a transgressão de valores e costumes como mote.

UMU: Você é uma das primeiras mulheres trans com visibilidade no cenário contracultural que chamamos de underground em SP, dentro das vertentes metal/punk e que transicionou em atividade. Sabendo o quão heterofascista esse meio pode ser, como foi o seu processo de transição? Foi um momento de muitos rompimentos?

Karine: De fato eu demorei metade da minha vida pra aprender a me aceitar, romper com conceitos machistas enraizados, me desvencilhar de barreiras psicológicas advindas de uma educação calcada em bases cristãs. Demorei pra esmagar medos, pra conseguir me portar plenamente de acordo com a maneira que me sinto, me vejo e gosto de me expressar. E esses medos eram muitos: aceitação da família, amigos de longa data, do meio musical, de colocação profissional (principalmente, esse ainda é um medo vivo).

E realmente, quando eu cheguei no meu limite, quando ou eu me assumia ou eu literalmente dava um fim à minha existência, decidi sobreviver.

E por me assumir como trans/travesti, acabei encontrando muita resistência externa e rompimento de amizades, além de virar motivo de piada por aí (de pessoas próximas e/ou desconhecidas), alvo de agressões verbais gratuitas, e vítima da dificuldade de colocação profissional.

Contudo, me assumir foi o ato mais importante da minha vida, e meu maior arrependimento foi ter passado tanto tempo fugindo de mim mesma. E esse processo de rompimento também foi um processo de redescobrimento, renascimento e de conhecer pessoas que me acolhem, me respeitam e somam. Perdemos de um lado e ganhamos de outros. Mas nenhuma perda se compara à plenitude de vivermos nossa verdade, acima de qualquer enfrentamento que ora precisamos ter frente às bases machistas, sexistas, homo/transfóbicas, racistas, xenofóbicas ou qualquer outra exclusão de nossa sociedade que se reflete em todo espaço e em todos os níveis.

 

UMU: Essa pergunta me parece necessária para a compreensão das próximas. Você pode explicar a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual? Muita gente nunca teve informação sobre esse ponto crucial.

Karine: Orientação sexual está ligada ao gênero/sexo que cada pessoa se sente atraída, tanto afetivamente, emocionalmente ou sexualmente. Eu não gosto muito de ficar falando de tudo que é termo relativo à orientação sexual que temos hoje em dia pra distinguir sutilezas, então vou me ater aos seguintes:

– Heterossexual: atração pelo gênero/sexo oposto.
– Homossexual: atração pelo mesmo gênero/sexo.
– Bissexual: atração por ambos os gêneros/sexos.
– Assexual: falta de atração por qualquer um dos gêneros.

Coloco aqui os termos gênero e sexo, pois o primeiro se trata de uma distinção/construção social, o segundo é uma categoria biológica.

Identidade de gênero é quando o indivíduo se identifica com um gênero diferente daquele que corresponde ao seu sexo atribuído no momento do nascimento. Aí que se enquadram as pessoas transgêneras (trans), sendo que a transgeneridade não é uma doença ou distúrbio psicológico.

De acordo com as convenções sociais tradicionais, existem dois tipos de gêneros: masculino e feminino. Porém, nem todas as pessoas se sentem alinhadas ao que se impõe como pertencente a cada gênero. Muitos indivíduos se sentem, se expressam e se comportam de maneira diversa ao que os moldes sociais binários (masculino X feminino) estabelecem como norma pra cada categoria.

Portanto, aqui separamos orientação sexual de identidade de gênero, pois pessoas transgêneras (homem-trans ou mulher-trans) podem ter qualquer uma das orientações sexuais citadas acima.

Vou dar exemplos:

Eu, que sou mulher-trans, bissexual e sou casada com uma mulher-cis (cis é abreviação de cisgênero: a maioria das pessoas, que se sentem alinhadas com o gênero que corresponde ao seu sexo atribuído no momento do nascimento). Nesse caso, se eu não anunciasse que sou bissexual, qualquer pessoa nos leria simplesmente como um casal de lésbicas. E, de fato, enquanto casal somos, mas isso não muda nossas orientações sexuais — quero abrir esse parênteses só pra ressaltar que bissexualidade não deixa de existir só porque alguém está num relacionamento estável monogâmico.

E há casos e casos, por isso nos referimos a LBTQI+ como “diversidade”. Então, continuando com exemplos, tem mulheres-trans que de fato são lésbicas, ou seja, só se atraem por mulheres. A maioria das pessoas trans que eu conheço (não que isso seja estatística) são heterossexuais, pois se atraem pelo gênero oposto, ou seja, homens-trans que sentem atração por mulheres ou mulheres-trans que sentem atração por homens.

E vamos ressaltar aqui que órgão genital não define gênero, o que define é como a pessoa se sente, se vê, se expressa, todas as modificações que ela faz no corpo, a escolha do nome, tudo pra se adequar ao gênero que ela se identifica.

Em suma, não necessariamente uma pessoa que se identifica com determinado gênero se atrai pelo gênero oposto, afetiva-emocional-sexualmente falando. O que leva muitos a pensar assim é o fato de vivermos numa sociedade heteronormativa.

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Foto: Kultist

UMU: O underground ainda é pautado em masculinidade e lutamos diariamente pra derrubar a associação da música torta/extrema com a figura do macho. Uma mulher trans parece particularmente ameaçadora, justamente por ter “abrido mão” dos privilégios masculinos e reivindicado sua identidade feminina – para eles, inferior, como você mesma afirmou. Você acha que o problema do underground é mais a identidade de gênero do que a orientação sexual? Será que, na real, eles odeiam tudo o que é feminino e um gay masculinizado seria mais bem aceito?

Karine: Acho que um gay que não dá pinta, como em qualquer espaço social, acaba se livrando de sofrer certos preconceitos, exclusões ou agressões (verbal ou física), assim como uma pessoa trans mais “passável” – termo que as pessoas trans usam pra dizer que sua aparência consegue ser vista socialmente como se ela fosse uma pessoa cisgênero, que faz as pessoas olharem e não desconfiarem que são trans, queer, etc.

Digo isso por experiência própria e por vivência com outras pessoas trans. Por exemplo, quando eu estava no meu processo de transição, ou seja, quando minha aparência era mais andrógina, mas tinha características masculinas predominantes, sofria muito mais discriminações do que passo nos últimos anos. Depois fiquei mais “passável”, mas naquele momento talvez me enxergassem como um gay superafeminado e, como foi falado sobre a masculinidade do senso comum calcado pelo machismo, que crê que o gênero feminino é inferior, a aparência “afeminada” vira alvo de determinadas zuações, agressões verbais, cantadas escrotas, etc.

Sobre essa questão que você colocou, se um gay mais masculinizado seria mais aceito, eu vou um pouco além: num ambiente underground, se caso um casal de homens começasse a se beijar, dar uns amassos como qualquer casal hétero faz, será que isso seria bem visto, será que eles não seriam alvo de piadinhas ou alguma agressão?

Se fosse um casal de lésbicas, será que elas não seriam fetichizadas, mesmo num ambiente que se propõe a questionar padrões sociais dominantes? É aquela história, muita gente diz que aceita. Aceita, mas até certo ponto…

Aí que está, eu mesma não me sinto à vontade pra isso num ambiente predominantemente hétero e cisgênero, mesmo sendo underground, quase sempre só de pensar dá um frio na barriga de que alguma coisa ruim possa acontecer. E não estou falando só de mim. Quantas pessoas homossexuais ou trans vocês veem frequentando rolês underground? Contamos nos dedos ou nem contamos, né? Por isso, a maioria não se sente segura ou acolhida. Muitas vezes os olhares já nos recriminam. As pessoas LGBTQ+ acabam preferindo frequentar rolês em que são aceitas, mesmo nem curtindo tanto o som. Digo isso me baseando em amigos e amigas LGBTQ+ que curtem vertentes mais extremas e preferem ir num rolê que toca outros tipos de música e frequentados por semelhantes do que o rolê que toca o som que gostam de verdade. Ninguém gosta de sair de casa pra se divertir e encontrar mais um problema pra bombardear sua autoestima que já é alvo em tudo que é espaço social.

Por outro lado, vejo que as mulheres lésbicas, bissexuais, queers, colocam mais a cara no sol nos rolês, porém não é em todo ambiente que se sentem seguras. Tanto é que têm rolado alguns eventos destinados à visibilidade feminina, organizados por mulheres no geral, com bandas com integrantes mulheres e também mulheres promovendo divulgação de trabalhos artísticos ou diversos feitos por elas. Vivemos em um momento histórico em que infelizmente ainda é necessário ter esse tipo de rolê específico pra dar um foco, onde as mulheres se sintam totalmente acolhidas, onde não vão rolar aquelas chatices de homem vir querer te ensinar a usar seu instrumento ou dar pitaco nas suas regulagens sem ter sido solicitado, nem aqueles “elogios” arrombados nos desqualificando, desrespeitando nosso lugar de fala; ou mesmo homens que param pra prestar atenção na banda só se as integrantes corresponderem a estereótipos físicos de padrão de beleza imposto, etc.

UMU: Ainda sobre feminilidades e underground, você acha que a “passabilidade” ainda é decisiva pra ter mais aceitação nesse meio? Você se sente mais segura quando não percebem sua transgeneridade ou o machismo é igualmente hostil quando a leem enquanto mulher cis?

Karine: Infelizmente ainda é. Um ou dois anos atrás, não me recordo, uma amiga minha travesti foi barrada de usar o banheiro feminino num rolê, por exemplo. Eu mesma, quando era menos passável, me sentia muito mais insegura do que hoje em dia, justamente porque antes só os olhares já me faziam me sentir desconfortável, principalmente quando era rolê de vertentes do metal, isso quando de fato não rolavam comentários sobre mim e até mesmo exclusão.

Eu mesma, toda vez que vou tocar num lugar onde não conheço muita gente ou mesmo ninguém, outras cidades e tal, até hoje fico com medo de ter minha identidade de gênero desrespeitada, ou seja, me tratarem com pronomes masculinos, pois isso é comum quando algumas pessoas percebem que sou trans. Claro que nem sempre é de propósito, justamente porque ainda tem aquela questão de que muitas pessoas ainda não sabem que existe diferença entre orientação sexual e identidade de gênero, então pode acontecer de ser um caso assim.

A pessoa me lê totalmente feminina, mas de repente percebe que sou trans, e na percepção dela me torno outra coisa, sei lá, de repente pensa é um super viado, afeminadérrimo e tals, aí trata no masculino. Mas, muitas vezes, é por maldade mesmo que as pessoas desrespeitam os pronomes, seja por não aceitarem pessoas trans, seja pra ofender gratuitamente.

E é perceptível quando é na maldade ou na inocência. E infelizmente muitas vezes é na maldade mesmo.

UMU: Na sua fala, você trouxe muito a questão da sexualidade. Depois da segurança e integridade, o próximo desafio das mulheres trans no underground parecem ser as relações afetivas/sexuais, flertes e expressão do desejo. Tenho a impressão que até mesmo no âmbito heterossexual existe um certo pudor nesse meio, você concorda? Há um longo caminho até a liberdade de orientação sexual e manifestação da libido no underground?

Karine: Sim, às vezes só numa troca de carinhos ou nuns beijos de leve nos meios sociais um casal LGBT já vira alvo de olhares inquisidores, no mínimo. E é isso, como eu disse no dia do evento, na roda de conversa, no underground algumas pessoas reproduzem reflexos da carga machista e hetero-cis-normativa que permeia nossa sociedade. Não que a totalidade de pessoas que frequentam rolês underground tenham que ser desconstruídas, pois isso cada um tem seu tempo, mas é algo que ainda espero, que pessoas LBTQ+ se sintam à vontade de frequentar os picos onde rolam os sons que curtem sem medo de qualquer tipo de agressão caso role um flerte, uma pegação com alguém.

Eu comentei sobre um evento que organizei junto com o coletivo que faço parte, Out and Pround: fizemos um rolê chamado Resistência Transviada, onde todas as bandas tinham pelo menos um integrante LGBTQ+ e entre os shows das bandas havia apresentações de drag queens. E foi um evento maravilhoso, onde colou muita gente, e algumas pessoas me falaram que foi a primeira vez que tiveram coragem de ir num show de banda de metal, punk, hardcore… tinha toda a diversidade nesse rolê, pessoas trans, queers, sapatões, viados, até uns héteros colaram e algumas coisas me chamaram a atenção.

Primeiro que eu nunca tinha visto um mosh com gente transviada! Durante o rolê, vários casais se formaram, pessoas saindo pra curtir o som que gostam e se sentindo totalmente seguras e livres… tinha um rapaz de corpse paint e ele era todo afeminado. Ele disse que foi a primeira vez que tinha saído num rolê daquele jeito e que, com certeza, se colasse num rolê de black metal naquele visu e sendo ele mesmo, já esperaria o pior dessa galera, porque nesse meio tem muita gente homofóbica.

Teve hater que entrou na página do evento pra comentar em fotos onde aparecia um drag king, dizendo que nós do evento estávamos esculhambando o metal, que tudo bem a pessoa serem LGBT, mas não precisava “ter essas putarias”. Outro comentou que ia aparecer na porta pra jogar uma bomba. E o perfil dessa gente, dentre outros haters, é tudo galera do metal. Ou seja, né? Ainda vai demorar gerações pra isso mudar, pelo menos pra mim, acho que eu sou pessimista e acredito muito pouco na humanidade. Mas a gente faz nossa parte, fazemos nossos rolês e, se por enquanto tem que ser separado, que seja, mas seja de algum jeito.

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Foto: Coletivo Refuse/Resist

UMU: Sabemos que o Brasil é recordista em violência contra pessoas trans e travestis. Diariamente nos deparamos com notícias de assassinatos violentos e todo tipo de crueldade contra essa população, que tem uma das expectativas de vida mais baixas entre minorias. O underground, por outro lado, deveria ser um espaço de acolhimento e resistência de pessoas marginalizadas no status quo. Você se sente segura nos rolês? Pode relatar casos e exemplos de transfobia que devem ser combatidos?

Karine: Especificamente no caso das pessoas trans começa pelo tratamento. Há quem desrespeite os pronomes, já passei diversas vezes por situações de pessoas me tratando no masculino e isso até hoje. Toda vez que preciso usar um banheiro público bate aquele medo de alguém implicar por eu usar o banheiro feminino (já teve amiga minha que foi barrada e talvez pela questão da pouca passabilidade).

Já aconteceu de eu estar num rolê metal, numa roda entre amigos, chegar uma pessoa cumprimentando todo mundo, dando a mão pros caras, beijo no rosto das minas e quando chegou pra me cumprimentar veio com a intenção de dar um beijo no rosto, mas quando chegou perto parou (percebeu que eu era trans e sei lá como ele me leu, como uma bichona vestida de mulher, sei lá), soltou um “Ih caralho” ao mesmo tempo que deu um passo pra trás e com uma expressão de indignação, daí estendeu a mão pra me cumprimentar. Talvez tenha sido a primeira vez que ele tenha se deparado com alguém como eu num rolê e apenas reproduziu seu estranhamento. Mas, obviamente, me senti um lixo com essa situação.

E não sei muito se tem como combater, pois a falta de convívio que traz a não aceitação e por outro lado tem o dilema: como promover esse convívio se as pessoas LGBTQ+ preferem nem arriscar passar por coisas semelhantes nesses espaços? Preferem nem frequentar, principalmente as trans e as travestis, que são grupos que já sofrem muita agressão no seu cotidiano e ao longo da vida, que são excluídas de vários contextos sociais, até os mais básicos como frequentar a escola, ter um emprego digno, conviver com a própria família sendo aceita, etc.

Tem uma amiga minha que simplesmente foi expulsa da banda que tocava quando começou a sua transição. Ela tocava numa banda de death melódico. Ou seja, de novo essa galerinha homo-transfóbica do metal. Tenho amiga que ama power e speed metal, mas cansou de sofrer discriminação nos poucos rolês que arriscou colar. Ela acabou riscando isso como atividade de sua vida, curte demais, mas não cola jamais em show nenhum. Comigo já aconteceu de eu subir no palco e alguém do público falar “vish, tem travesti nessa banda”, como se fosse algo que não deveria acontecer, como se travesti só pudesse ter o espaço da marginalização, da pista, da noite.

Assim como tenho dezenas de amigos e amigas trans que são musicistas da mais alta qualidade e simplesmente desistiram de insistir num meio que os repele.

Não conheço suas histórias, mas com certeza já passaram por diversas situações desagradáveis, e chega uma hora que cansam de dar murro em ponta de faca.

UMU: A fetichização das mulheres no underground é um problema sério. Ainda sofremos com a objetificação constante, assédio, desumanização pela nossa sexualidade e todo tipo de comportamento abusivo. Muitas vezes os caras secundarizam toda a nossa produção e nos julgam em função da aparência, principalmente quando estamos em cima do palco. Você sente esse olhar estigmatizante? O tratamento é o mesmo com mulheres cis e trans?

Karine: Não só no palco acontece isso. Começa na hora que você pisa numa loja de instrumento e às vezes se depara com o vendedor que vem te tirar por você ser mulher. No meu caso, por eu ser trans, o cara bate o olho e já presume que eu nem sei o que quero ali na loja. Mas no underground já presenciei diversas situações de homens fazendo comentários sobre o padrão de beleza da mina antes de mais nada, aquela coisa, se a mulher tá dentro de certos padrões então vale a pena prestar atenção no som ou ainda, a mina toca bem, mas isso e aquilo, comentando sobre especificidades do corpo que não lhe agradam. Acho que o tratamento é semelhante sendo mulher cis ou trans em tais circunstâncias.

Um dia desses toquei num fest que achei bem massa porque tinha uma garotada mais jovem do que de costume e mães e pais com crianças. E na hora que subimos no palco pra arrumarmos os equipos um pai disse pra filha: olha lá, essa banda tem três meninas! Falou com um tom de admiração, como quem diz: filha, você também pode se o que quiser. Fiquei supercontente com o comentário!

A gente fala de episódios discriminatórios, o que é importantíssimo, mas acho importante dizer também que estamos numa época em que ao mesmo tempo que algumas pessoas reforçam preconceitos, outras já desconstruíram.

Essas pessoas somam e dão o exemplo pela prática de alguma maneira, e isso está acontecendo agora, reforçando pra outras gerações a necessidade de versarem por atitudes igualitárias. Acho que cada indivíduo tem seu tempo pra mudanças, de acordo com suas vivências e vontade, e por isso mesmo são importantes esses apontamentos como crítica a comportamentos excludentes que persistem ainda hoje.

UMU: Você tem referências de pessoas trans ou não-binárias no underground? Pode indicar bandas, projetos ou materiais pra gente?

Karine: Das pessoas que tenho como referência, a maioria é de outras vertentes musicais, poderia citar a banda Verônica Decide Morrer, Mc Linn da Quebrada, Mc Xuxu, Danna Lisboa, Blatta Knup (que acabou). Bandas de fora tem a G.L.O.S.S. (que acabou), Against Me e Cretin.

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Foto: Kultist

UMU: Deixe a sua mensagem para:

– As pessoas que curtem seu trampo, te admiram e querem um rolê mais livre e diverso.

Karine: Sobretudo sou uma pessoa apaixonada por música, e saber que tem gente que sinceramente aprecia o que produzo junto com as pessoas que toco é muito gratificante e incentivador. E me incentivam sobretudo por eu ser trans e instrumentista num meio em que infelizmente ainda sou uma das poucas.

É o olhar e atitudes pela equidade que vocês têm que fazem a diferença e mudam o hoje e o amanhã.

– As pessoas que ainda veem a transgeneridade com curiosidade e não sabem como agir ou mesmo são omissas em relação a isso.

Karine: Se você tem dúvida se uma pessoa é trans e não sabe como tratá-la, eu acredito que a atitude mais sensata é perguntar como ela prefere ser tratada (no feminino ou masculino), pois nossa primeira barreira social é as pessoas respeitarem nossa identidade de gênero.

É meio complicado esse assunto, pois tem pessoas que são andróginas e não trans, tem pessoas que embora trans não se importam com o pronome com que são tratadas. Por isso, na dúvida, o melhor é perguntar mesmo.

E também dar aquele puxão de orelha no amiguinho ou amiguinha que fica com piadas transfóbica perto de pessoas trans ou as tratando em desacordo com sua identidade como provocação, desdém ou tiração mesmo. Quem fica em cima do muro infelizmente apoia quem oprime, é clichê, mas é real.

– As pessoas transfóbicas e caras machistas que atrasam o rolê e são os culpados por todo o retrocesso que ainda existe no underground.

Karine: Não sei o que dizer pra quem não está disposto a parar pra escutar e refletir sobre grupos de pessoas que têm uma realidade que ele se recusa a entender e a respeitar. Nossa sociedade, em tudo que é aspecto, é norteada por desigualdades e nem todos os homens enxergam que ser homem é estar no topo da hierarquia de gêneros construída, estabelecida e defendida por quem quer manter seus privilégios sociais em detrimento dos de outros. E quando se recusam a enxergar isso, já começa o bloqueio pra mudarem qualquer atitude.

Falando por mim, eu diria que não me importa a consideração ou aceitação dessas pessoas. Nos termos delas: “tipo, te aceito, mas…” Não preciso da aceitação de quem é incapaz de aceitar a diversidade, mas quero ser respeitada! Não quero sofrer agressões gratuitas de nenhum tipo ou exclusão só por eu ser quem sou, pessoa trans.

Mas, infelizmente, certos meios do underground, como o metal — e eu estou falando de boa parte, se não a maioria dos admiradores das vertentes desse gênero musical —, seguem a cartilha conservadora que declaradamente apoia agressores de mulheres de todo tipo, que endossa comportamentos homo/transfóbicos e infelizmente inclui até algumas mulheres que reproduzem machismo, falta de sororidade e transfobia.

Por isso eu prefiro nem frequentar. Estou num tempo em que cansei de muita coisa, inclusive de me esforçar pra ser aceita onde declaradamente muitos me veem como aberração, como já ouvi.

Bandas em que a Karine toca:
Mau Sangue: mausangue.bandcamp.com
Kultist: Facebook

Por Cely Couto para União de Mulheres do Underground

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