Sororidade sem hipocrisia: por um underground das nossas e pras nossas

Sororidade com as minhas, hostilidade com as outras passou a ser um comportamento comum, que reflete a dificuldade em convergir os interesses das mulheres, tratadas como se fossem um grupo homogêneo apesar de suas profundas diferenças. 

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Foto: Empodera Distra

É inegável: o feminismo mudou o mundo. As meninas dessa geração têm pelo menos o dobro de possibilidades da anterior, o machismo tem se tornado socialmente inaceitável e nossas conquistas ecoam pelo mundo todo. Nesse pequeno nicho chamado underground, um dos mais tradicionalmente dominados por homens, os efeitos do avanço feminista são evidentes: cada vez mais mulheres tocando, produzindo, organizando, discutindo e resistindo Brasil afora. Reconhecidas as vitórias, também precisamos falar sobre os nossos problemas.

Em um cenário tão diverso, é óbvio que também temos contradições, conflitos e diferenças. O próprio feminismo é totalmente plural, com vários sujeitos e correntes que constroem suas verdades sobre o que é ser uma mulher livre, autônoma e empoderada. Só não podemos perder de vista o objetivo central da luta das mulheres, que é acabar com a desigualdade de gênero e garantir os direitos à metade da humanidade que foi inferiorizada, violentada e subjulgada por séculos. Mesmo assim, o feminismo tem suas disputas internas e elas são legítimas, expressas em conflitos e discordâncias entre coletivos, militantes e grupos diversos.

No underground, a situação é a mesma, com o agravante de que provavelmente as mulheres avançaram mais rápido em outros âmbitos do que na produção contracultural, ainda mais marcada pelo machismo desde a sua raiz. Em outras palavras, o protagonismo feminino nesse meio é muito novo, especificamente no Brasil. Estamos deixando de ser “exceções” aos poucos, graças ao trabalho e empenho de bandas, coletivos, selos, produtoras, comunicadoras e minas de todas as áreas envolvidas na produção independente.

O resultado geral é muito positivo, mas alguns obstáculos têm prejudicado nossas relações e nossos corres, e este texto é uma tentativa de convidar todas a uma reflexão conjunta sobre os nossos desentendimentos e desafetos. A discussão é baseada em relatos recentes e episódios envolvendo brigas, ameaças e situações de violência física e psicológica entre mulheres, que demandam uma conversa franca sobre como nós podemos melhorar nosso diálogo e seguir avançando com nossos projetos, dentro e fora do underground.

Sororidade pra quem?

Sororidade é um termo polêmico que define a empatia e cooperação entre mulheres, baseadas na sua identificação enquanto companheiras de luta feminista. Para além da irmandade feminina, é um conceito que tenta combater a rivalidade feminina criada pelo patriarcado, que nos coloca em disputa constante pela aprovação masculina. Assim, a sororidade surgiu como um compromisso de união entre mulheres, um sentimento que retoma nossos laços de amizade e camaradagem nas dimensões ética, afetiva e política.

Na teoria é maravilhoso, mas na prática a ideia acabou se tornando uma “sororidade seletiva”. São inúmeras as denúncias envolvendo abusos e agressões entre mulheres e um uso oportunista do conceito de sororidade, reivindicado somente quando convém. Como dito, as mulheres são muito diferentes entre si, e vivem realidades muito distintas ainda que estejam ligadas pela categoria gênero. Logo a sororidade mostrou suas contradições, desde a exclusão das mulheres trabalhadoras, negras e indígenas até o uso do termo como tapume para ocultar atitudes violentas e segregação. Sororidade com as minhas, hostilidade com as outras passou a ser um comportamento comum, que reflete a dificuldade em convergir os interesses das mulheres, tratadas como se fossem um grupo homogêneo apesar de suas profundas diferenças. 

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Isso não significa que a sororidade seja uma ideia ruim ou equivocada. Na verdade, é uma ótima maneira de pensar sobre as nossas atitudes e preconceitos acerca das relações entre mulheres, um modo de enxergá-las como aliadas ao invés de rivais na questão de gênero. Mas é romântico demais pensar que mulheres tão diferentes e com relações tão complexas poderiam se unir sob um único termo e que seríamos amigas para sempre com tantas outras divergências que nos atravessam.

Nos primeiros contatos com o feminismo, é incrível sentir a conexão com outras mulheres, criar vínculos e fortalecer-se mutuamente. Isso é real e nós podemos construir esse companheirismo em nossos grupos, mas a sororidade não pode se tornar essa espécie de “entidade da união feminina eterna”, muito menos uma espécie de convenção cínica, porque a realidade é muito mais tensa, conflituosa e hostil.

Por uma sororidade realista

A proposta aqui é que a gente consiga estabelecer uma sororidade realista, pragmática, sem hipocrisia e romantização. A sororidade tem mais o sentido de evitar os vícios de rivalidade feminina que favorecem o machismo do que promover a defesa e união com qualquer pessoa só porque é mulher. Ou seja, não, você não é obrigada a ser aliada, amiga ou se associar a uma mulher só para obedecer a supostos critérios de sororidade – foi justamente essa ideia ilusória que gerou tantos problemas.

Nesse sentido, a gente pode praticar a sororidade evitando as famosas rixas entre mulheres por motivos fúteis, disputas por relações com homens, intrigas, comentários maldosos, comparações com outras mulheres e todo esse combo que o patriarcado nos impõe na tentativa de estabelecer um conflito permanente – querem que a gente se ocupe em destruir umas às outras enquanto a plateia de homens vai à loucura e o patriarcado vence mais uma.

E claro, a sororidade também é importante estrategicamente para o feminismo como um todo. Atacar uma mulher publicamente, espalhar mentiras, queimar o corre de um coletivo de mulheres por problemas pessoais são exemplos do famoso “tiro no pé”. Nesse ponto, é preciso ter maturidade e consciência da situação geral das mulheres em determinado meio antes de publicar críticas, denúncias e ofensas. Quase sempre é possível resolver a questão  sem expor umas às outras e criar um  verdadeiro ringue online – lembrando que as redes sociais são o pior lugar para esse tipo de discussão, onde as pessoas só querem alimentar a treta e espetacularizar a situação.

Agora, definitivamente nós não precisamos criar vínculos e associações com mulheres que simplesmente não gostamos, seja por questões pessoais ou ideológicas. Há mulheres violentas, agressivas, com péssimo caráter e pilantras de todo tipo, e chega a ser perigoso recomendar que a gente sempre confie nelas só pelo gênero.

Acreditar na igualdade entre os gêneros e querer a libertação de si mesma e todas as mulheres não significa amar e apoiar cada uma individualmente, assim como defender direitos humanos não significa acreditar na boa fé de toda a humanidade. Nossa meta é justiça social pelo bem comum, e não harmonia plena e consenso entre todos os seres, ainda mais nesses tempos de polarização intensa e retrocesso da democracia. A violência praticada por mulheres é real e deve ser reconhecida, sem risco de desmerecer o propósito do feminismo que é muito mais amplo.

girl gang

A aliança é sempre mais eficiente em grupos sociais com maior afinidade, e a sororidade não é exceção. Naturalmente nós vamos nos conectar mais com mulheres de realidades semelhantes, por isso não dá pra idealizar uma sororidade universal – nem o feminismo é totalizante.

Dissidência: uma questão de respeito

No contexto do underground, quanto mais diversidade de produções e iniciativas, melhor. Temos que lembrar sempre que a produção independente, ainda mais envolvendo contracultura, é dificílima de movimentar, e no caso das minas é pior ainda. É uma luta pra ocupar espaço, uma luta pra ter visibilidade, mais uma guerra pra ter o seu trampo reconhecido.

Nessa situação, a única atitude possível no caso de discordâncias é romper com o mínimo de respeito. Rompimentos são absolutamente normais e necessários, e a gente precisa se acostumar com isso, porque só assim se constrói o novo. Praticamente não existe espaço para competição direta porque sequer existe a concorrência nesse nível, e uma das melhores coisas sobre a contracultura é que ela consegue se expandir horizontalmente, pulverizada em vários pontos, de modo que qualquer iniciativa tem potencial pra ser desenvolvida sem a necessidade da validação ou aprovação de algum poder centralizado (ou seja, goste ou não goste, todo trampo que reivindica esse espaço é legítimo).

Deixar de se relacionar com alguém não implica em oposição, perseguição ou qualquer motivo pra tentar prejudicar a pessoa ou o trabalho dela. Se não tem mais diálogo, cada uma com seu corre e vida que segue, porque com tanta coisa pra fazer não é possível que sobre tempo pra boicotar o trampo das outras.

O desserviço da rivalidade feminina

Quando a gente acha que avançou na superação da rivalidade feminina, surge novamente a caricatura da “inimiga” contaminando nosso imaginário. Quase sempre a rivalidade se baseia nas razões mais fúteis, do tipo que as envolvidas teriam vergonha de assumir, tamanha a leviandade.

Na indústria cultural, ainda é comum a promoção de disputas e “alfinetadas” entre mulheres, como parte do enredo da “luta de lacres” (fulana x ciclana em mais uma troca de tweets inflamados). Estender isso ao meio contracultural é um desserviço tremendo, porque já falta visibilidade, estrutura e apoio a todas, e ainda sobra espaço pra picuinhas típicas da mídia especializada em fofocas. Definitivamente as mulheres do underground têm potencial pra rejeitar e combater esses comportamentos, que servem justamente à ridicularização das relações femininas e enfraquecimento da nossa organização.

Uma discordância teórica ou prática é um bom motivo para romper uma relação e estabelecer a oposição. Um episódio de violência, uma ofensa, uma traição, uma decepção… todas essas razões mais que justificam o afastamento e a dissidência. O que não tem justificativa é a promoção de uma rivalidade quase pré-existente: um cenário em que as mulheres naturalmente disputam a atenção de homens, vivem em constante comparação estética umas com as outras, lutam pra manter posições de privilégio ao lado de homens submetendo outras a uma espécie de “autoridade”, competem em visibilidade e popularidade dos trampos, empreendem perseguições e difamações contra outras mulheres em posição semelhante, entre outras atitudes lamentáveis que já tardaram em ser superadas.

kinopoisk.ru

No underground, especificamente, parece um inevitável reflexo da baixíssima participação feminina e dificuldade de posicionamento. Assim como no mundo corporativo, em que uma mulher tem que ser o dobro de competente e encarnar o dobro da agressividade masculina para ser reconhecida, muitas mulheres na contracultura também se tornam extremamente destrutivas para garantir sua posição. A ameaça constante do desrespeito torna mulheres reativas e embrutecidas, a ponto de se voltarem contra as outras para defenderem seu “território”.

Em outros casos, a rivalidade reencarna o fantasma da disputa por homens, os horrores da competição baseada em visual, beleza, personalidade e outras razões que brotam das catacumbas do subconsciente pra nos lembrar que fomos ensinadas a odiar e derrotar umas às outras. É vergonhoso, é desprezível, mas está presente entre feministas e precisa ser discutido. A febre da “desconstrução” esconde as lacunas que ficam pelo caminho, as dificuldades em praticar o que se defende, e a autocrítica tão necessária ao avanço das nossas consciências e objetivos. Sabemos que é absurdo cair nessas armadilhas, mas a realidade mostra que a vigilância deve ser mantida, pois os velhos problemas estão sempre à espreita – e precisam ser encarados de frente, não omitidos ou ignorados.

Até que ponto o pessoal é político?

A segunda onda feminista ecoa nas nossas mentes: “o pessoal é político”. O sentido original dessa frase é expor as opressões e injustiças sofridas pelas mulheres no âmbito privado, nos relacionamentos abusivos, na exploração dentro de casa e hipocrisias da família burguesa. De fato, muitas questões consideradas “pessoais” tiveram de ser levadas à arena pública para avançar na emancipação feminina, mas isso não pode ser confundido com a personalização de qualquer pauta política, principalmente quando feito de modo desonesto.

Quantas acusações com base em ideais feministas, libertários, antirracistas e classistas são feitas entre mulheres que escondem uma motivação pessoal? Evidente que o problema não se restringe a mulheres ou ao underground, mas o sintoma tem aparecido mais do que gostaríamos de admitir. Acusar ou difamar uma pessoa com argumentação política é uma decisão muito séria, se realmente pretendemos ter seriedade na nossa militância e quisermos ser ouvidas nas nossas demandas.

Antes de decidir se um problema é político, convém fazer uma profunda autocrítica: meus desafetos por essa pessoa estão influenciando meu julgamento? Do contrário, é de uma desonestidade absurda acusar alguém de cometer um ato machista, racista, fascista de forma inconsequente ou simplesmente por conta de rixas pessoais. Problemas de desavenças, desacordos e hostilidades pessoais em geral continuam restritos à esfera privada, e usar uma pauta política pra difamar alguém por pura antipatia é oportunismo do mais baixo – além de deslegitimar a causa.

O perigo da difamação na era das fake news

Há vários materiais sobre comunicação não-violenta e resolução de conflitos que apontam a difamação como um dos problemas mais graves na era da informação. E realmente, em tempos de Supremo Tribunal do Facebook não há nada mais devastador que um conteúdo difamatório publicado e compartilhado sem nenhum controle.

Se as fake news já fazem estrago, um boato bem narrado nas redes sociais representa a morte política e social para muitas pessoas. Nessa onda de chumbo trocado em notas públicas, cometem-se injustiças, punições totalmente desproporcionais e distorções inimagináveis nas histórias. Seja na internet ou nos círculos e redes sociais da vida concreta, as fofocas e intrigas continuam altamente destrutivas e nem um pouco recomendáveis. Há denúncias válidas e necessárias, obviamente, mas esse recurso devem ser utilizado com o máximo de cuidado, e nunca por impulso ou em situações banais.

No underground, acrescenta-se o agravante de um círculo restrito de pessoas, com abrangência mundial, onde qualquer informação corre rapidamente e circula nos lugares mais inusitados. Assim, temos que tomar o dobro de cuidado com as informações que repassamos, com os julgamentos que fazemos e sentenças que passamos para frente. Entre mulheres, o estigma social já cria a figura da “fofoqueira”, que “fala demais” e evoca aquela imagem ridícula das mulheres que trocam farpas e destilam veneno entre si.

O antídoto para combater esse estereótipo é a responsabilidade, aplicável a todas e não somente àquelas que gostamos e temos como amigas e aliadas. Há outras infinitas formas de resolver conflitos, de preferência o bom e velho diálogo, que é incrivelmente eficaz pra evitar excessos dos dois lados – nem que seja pra decidir pela indiferença mútua. As difamações e boatos, pelo contrário, só reforçam a rivalidade feminina e arrastam conflitos por meses, anos, décadas… inclusive por pessoas que nada têm a ver com o assunto, mas querem garantir a sobrevivência da treta para as próximas gerações (quem resiste a um buxixo?).

Pela “União das Mulheres do Underground”

all grrl assault
Imagens: All Grrrl Assault

Nós, da UMU, estamos trazendo essa discussão porque acreditamos em uma sororidade responsável e sem ingenuidade ou hipocrisia, acreditamos no fim dessa rivalidade feminina vazia e inútil que ainda afeta nossas relações e atrasa o corre de todo mundo –justamente onde mais precisamos da união.

Unir-se a mulheres significa respeitar a história, projetos e ideias de todas que correm pelo mesmo, em um cenário que precisa de minas combativas, produtivas e resilientes. Significa valorizar as suas sem atrasar as outras, e pensar nas “nossas” como um todo. Bom mesmo é poder se reconhecer nas outras, oferecer e receber apoio, compartilhar o que só outra mulher entende e avançar junto com as conquistas delas.

Definitivamente nós não precisamos competir umas com as outras, porque cada mulher que alcança um objetivo abre espaço para todas, e o que não falta é lugar pra ser ocupado em todas as áreas. No underground isso é ainda mais pulsante, e nós temos o privilégio da proximidade, das redes de apoio e da identificação cultural. Diferentemente da indústria aí fora, é a gente mesma que constrói tudo isso, sem o espetáculo da mídia criando disputas sem fundamento, sem o show business querendo ver o circo pegar fogo, sem treta pelos holofotes, é nós por nós. Por essas e outras, a gente pode ser melhor que tudo isso – seja como amigas, aliadas ou só na convivência diplomática.

Por Cely Couto para União das Mulheres do Underground

 

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