HARDCORE CRUST DO PARÁ: Entrevista com a banda Klitores Kaos

Longe dos grandes centros do sudeste, há uma cena metal punk incrível com bandas que possuem uma qualidade absurda, shows insanos com organizações impecáveis, público brutal, zines sendo produzidos com periodicidade e conteúdo relevante, dentre tantas outras atividades.  Tivemos a felicidade de conversar com a banda Klitores Kaos, que é de Belém do Pará e vem conquistando fãs no Brasil inteiro. Confira!

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Como nasceu a Klitoris Kaos? Conte um pouco sobre o início da banda.
Grace – Primeiramente Saudações a todas as mulheres que seguem na resistência feminista no underground desde país.

Bem, a Klitores kaos iniciou a partir do momento que eu conheci a Debby (batera), em dezembro de 2014. Ela foi me encontrar para comprar um coturno que eu estava vendendo, e então começamos a trocar ideia. Eu disse que tentei formar uma banda só de mulheres naquele ano, mas não deu certo, e ela me falou que estava aprendendo a tocar bateria e que já havia tocado em uma banda feminina. Como eu tinha algumas letras prontas, e queria não formar apenas uma banda composta só por mulheres, mas uma banda feminista, abordar pautas como opressão policial, contra o sistema capitalista, sobre ação direta, resistência combativa… meio que espontaneamente até veio a ideia de tentarmos formar a Klitores Kaos. Desde o início, o objetivo era o de fazer um som cru, politizado, e feito apenas por mulheres.  Foi engraçado porque quando conheci a Debby estava no início de uma gravidez, então o início da banda coincidiu com este fato da minha vida, tinha tudo pra não dar certo, mas deu, felizmente hehe. Nosso primeiro ensaio foi só vocal e batera, até encontrarmos uma guitarrista e baixista em fevereiro de 2015, e nossa primeira apresentação foi em março, no Calcinhas Metal Fest I, já com duas músicas autorais.

Sabemos que a banda possui uma postura antifascista forte. Mas nos falem um pouco sobre o recorte de raça e classe dentro da postura ideológica da banda. Na individualidade de cada integrante, essas questões são abordadas, mas como vocês inserem essas vivências na música de vocês?

Grace – A gente aborda estas questões nas letras principalmente, e nos discursos entre as músicas em nossas apresentações. A nossa primeira música,  Atividade Subversiva, fala especificamente sobre a questão de classe, a luta da mulher proletária, a luta da mulher camponesa organizada contra o latifúndio  e o agronegíocio, greves combativas, resistência contra opressão policial em atos políticos de rua, contra a burguesia. Tem a Rolê Antifascista, que fala sobre união antifa. Como há alguns anos, já militei em movimentos estudantis, entre outras organizações políticas,  não tem como não falar sobre isso, faz parte da minha ideologia. A banda também possui 3 mulheres negras, o que é muito significativo. As meninas já estão compondo músicas com estas temáticas envolvendo a luta da mulher negra, além do fato de que somos todas moradoras de bairros periféricos em Belém, as nossas lutas cotidianas nos inspiram muito no discurso, nas composições, a nossa realidade.

2Mih – A gente sempre faz discursos de conscientização durante o show e neles tentamos abranger pautas que ainda não contemplamos nas músicas e reforçar as que a gente já defende nas letras, pois entendemos que é uma oportunidade indispensável de atingir as pessoas que se aproximam da gente apenas pelo som. O nosso repertório atualmente conta com oito músicas autorais e este semestre a gente quer ampliar esse número justamente com músicas que tratam desses temas, uma delas é “5 de novembro”, que remete a uma chacina ocorrida em bairros periféricos de Belém em 2014, cujo alvo foram 10 jovens negros. Infelizmente esse não foi um caso isolado, mas sim uma abertura para instauração de toques de recolher e mais chacinas envolvendo carros preto e prata, a gente tem que conviver todos os dias com essa cultura de extermínio de pessoas negras ao nosso redor, com medo de ser a próxima ou uma pessoa querida. E isso é apenas uma faceta do que a gente enfrenta enquanto mulheres negras e periféricas, existem muitas outras questões que a gente pretende abordar melhor daqui pra frente. Sobre classe, de uma maneira geral acho que as músicas são nesse tom, de instigar, de dar um sacode nas pessoas para essas situações e chamar pra luta.

A vocalista, Luma, é mãe solo e sempre traz a questão da maternidade para o debate. Quais são as principais dificuldades em se conciliar a vida profissional, a banda e a maternidade?

Grace – Como eu mencionei, o início da banda coincidiu com o início da minha gravidez, então sempre foi muito peculiar nossa vivência enquanto banda, sempre tivemos limitações por conta disso. As principais dificuldades, acho que principalmente em relação a não ter uma rede de apoio, isso dificulta bastante, não ter com quem deixar meu filho para poder trabalhar, algumas vezes minha mãe me ajuda, mas ela também tem a vida dela e nem sempre pode. Não existem opções de creches públicas ou por um valor acessível. Por conta disso também já deixamos de tocar algumas vezes, quando são eventos em locais abertos e que iniciam cedo, aí é bom que pode-se levar crianças, mas na maioria das vezes não rola. Geralmente nestes eventos não há espaços para mães, e nos sentimos muito excluídas por conta disso enquanto eles são pequenos. Eu tentei não parar a minha vida na medida do possível com a gravidez, mas tem sido uma resistência foda, muitas vezes já senti vontade de desistir de tudo, mas não posso, tenho que continuar em frente por meu filho também… e na banda, a gente vai se virando como pode, as meninas sempre me dão muita força, isso me fortalece, mas definitivamente não é fácil, a gente continua por acreditar muito e viver isso.

3Recentemente vocês encerraram uma vakinha online para arrecadar recursos financeiros para a gravação do EP de vocês. Conte um pouco sobre como foi essa experiência.

Grace – Foi muito gratificante, pois muitas pessoas ajudaram, seja divulgando ou doando, no começo não achávamos que pudesse ter um retorno esperado, mas atingimos até mais de 100% da meta, e ficamos muito felizes também por ver quanto de pessoas nos apoiam e acreditam no que estamos fazendo, manas de bandas de outras cidades doaram, coletivos… A gente vendeu nossas camisas também e muita gente comprou o merchan com intuito de apoiar o EP. O nosso sentimento é só de gratidão eterna, pois é um sonho também, ter um material registrado e em formato físico. Esperemos que tudo dê certo até o final do processo.

Mih – A vakinha foi ideia da Luma, eu particularmente estava bem incrédula que a gente fosse conseguir alguma coisa, por que eu sempre vejo esses esquemas de contribuição oferecerem uma contrapartida, e a gente num tinha nada para dar em troca, além de um “valeu!”. No final eu fiquei super feliz e emocionada até, por que foi gente de todo canto do país, os amigos, colega de trabalho, parentes, compartilhando e doando, e a gente conseguiu até ultrapassar o valor da meta. Eu considero que foi um exemplo prático do ditado “quem não arrisca, não petisca”. Graças a toda essa galera que contribuiu esse EP vai sair com muito carinho e muito esforço pra tornar o metrônomo nosso amigo hehehehe

Nós acompanhamos a cena metal punk do Pará e sabemos que há bandas fantásticas. Fale um pouco sobre a presença das minas nesse cenário. Quais são as produções, zines e bandas com mulheres daí que vocês destacam.

Grace – Recentemente tem surgido mais bandas de hardcore com mulheres na formação, o que nos deixa muito contentes. Podemos citar a BadTrip, que tem a Thaís no vocal e a Contraponto, com a Thyrza também nos vocais, a Esgoto Surfers, com o vocal da Samara, e há bandas de outros estilos com formação totalmente feminina ou com pelo menos uma mulher na formação. Particularmente curto muito zines, e posso citar o Cinisca, editado pela Laiza ferreira, mana que arrasa nas colagens, Ppks Subversivas Zine, que até fizeram uma oficina ano passado, e o Baderna Poética, editado pela Maria Baderna. Ainda precisam surgir muito mais bandas, zines, produções de mulheres, precisamos ocupar estes espaços, protagonizar mesmo, passar nossa mensagem, mas acredito que daqui pra gente é um cenário que só vai crescer.

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Mih –  Eu considero que as manas tão abrindo o caminho para as bandas autorais de mulheres com muito sucesso. Mas creio que o rock alternativo está há alguns passos à frente do metal e do punk, tanto em número de bandas quanto em engajamento nas produções. Apesar disso, as manas que tão com a gente no som mais extremo também fazem um corre incrível, como a Line White, da Valkyrias Produções, que mantém o Calcinhas do Metal Fest firme e forte. Esse ano o evento sofreu ataques virtuais de haters que tiraram do ar a página do evento no Facebook, mas elas seguiram em frente. As minas da Blackladies, possuem um trampo super importante. A Thaís da Bad Trip, que a Luma citou,  iniciou um selo chamado Perna Torta Records. Eu fico muito emocionada e feliz com as novas bandas com mulheres, porque são minas que sempre vi arregaçando no mosh (por sinal, foi assim que eu as conheci hahaha) e berrando no microfone de outras bandas. Mais do que justo subirem ao palco e fazerem o próprio show. A gente vai tocar em Santarém agora no Tudo Pelas Mulheres Festival, eu ainda não conheço todas as oito bandas que tocarão conosco (Morana e Desire conhecemos no Calcinhas), mas a gente tem acompanhado a pré-produção do evento e eu creio que vai ser maravilhoso conhecer as manas que fazem um som de peso no oeste do estado. Em Castanhal tem a Petals Blade, que eu particularmente acho foda, tem uma mina na bateria que arrebenta muito, a Norielly, e uma guitarrista excelente também, a Alana, quando eu crescer quero tocar que nem elas hehehehe! Tem umas manas que eu sinto falta de ver no palco que é a Monise, da Cavalo do Cão e a Carina, da Criaturas de Simbad, são bandas que estão paradas, mas que vale a pena cês darem uma pesquisada. A mesma saudade eu sinto do Madame Saatan, que sem dúvida foi uma banda importantíssima pra muitas minas aqui do estado, e eu espero que nunca caia no esquecimento. A Evelyn Nunes fazia um trampo foda de ilustração com lambe-lambe e atualmente faz uns trabalhos em bordado de cair o queixo. Eu sei que falando assim parece muito, mas a real é que é ainda é muito desproporcional a nossa participação na cena com relação aos homens, mas como eu disse no início da resposta, eu vejo que o momento tem sido de abertura, e não é por que os caras tão sendo bonzinhos e deixando, é por que a gente tem cada vez mais feito questão de estar presente mesmo e fortalecendo umas às outras.

Vocês estão para fazer a primeira tour em outro estado, graças a união de mulheres muito ativas do sudeste. Como está a expectativa de vocês para os shows?

Grace – Cara, é um sonho também que está sendo realizado, fazer uma minitour fora do Pará. Isto não seria possível se não fosse o esforço brutal que as manas das coletivas de SP, que estão organizando, elas estão fazendo tudo com muita dedicação. Elas estão montando uma programação acessível para mulheres mães, com debates, exposições, além das bandas, então nossas expectativas são as melhores e esperamos suprir as expectativas das manas que estiverem presentes no evento também! Será a primeira vez que vamos tocar fora do estado, e vai ser uma experiência nova para nós. Então queremos viver intensamente cada momento, estamos mega-ansiosas.

IMG_0294Mih –  Mana do céu, eu nem gosto muito de pensar como vão ser os shows em si, pra eu num passar mal de nervoso antes da hora! hahahaha. Eu estou muito honrada, de todo o meu coração, por que tem sido um corre doido fechar tudo e eu me emociono muito com o interesse das pessoas pela gente, porque, cara, a gente sempre consome muito as coisas de sul e sudeste, mas jamais na minha vida lá, pelos meus 16 aninhos que foi quando começou meu interesse pelo contrabaixo, eu imaginei que eu fosse ter uma banda que influenciasse as minas no sentido contrário sabe, daqui do norte pra lá – e mesmo para outras regiões do país. Eu me sinto muito grata por isso estar acontecendo, e ao mesmo tempo sinto um peso de representar as minas daqui. Ao som do Pará de uma maneira geral, eu não deixo de pensar que a gente tá fazendo história: uma banda só de minas, aqui de uma cidade da Amazônia, se tornando referência e querida por gente de tão distante de onde vivemos. Eu espero que a gente consiga retribuir todo o carinho, dedicação envolvidos nessa tour, tanto por quem está participando da produção, como para quem tentou levar a gente para sua cidade e por algum motivo não conseguiu, e para o público que sempre interage com a gente pelas nossas mídias sociais e que estão nos aguardando.

Após a tour, quais são os planos da Klitoris Kaos? O que podemos esperar?

Grace – Principalmente finalizar o processo de gravação do nosso EP. Conseguir lançar esse material não apenas em formato digital, mas físico principalmente. Também estamos aguardando o lançamento de uma coletânea em homenagem à banda Bulimia, com participação de várias bandas femininas de todo Brasil, da qual nós também fizemos parte, gravando a faixa “Sofrimento“. Fora isso, como eu estou pretendendo passar um período fora do país, talvez a Klitores Kaos terá que procurar outra vocal, caso uma das meninas não consiga cantar e tocar, ficando um powertrio, mas é algo incerto ainda, e enquanto isto não é definido, tem muitas novidades a serem divulgadas, como o lançamento do EP.

Mih – Antes da Luma ir, pretendemos finalizar algumas composições que estavam engavetadas durante o período em que a banda estava sem guitarra e baixo, e algumas coisas novas também. Depois disso é reorganizar a banda para uma nova fase, com nova vocalista e novo repertório.

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Obrigada pela atenção e parabéns pelo trabalho foda da banda. Esse espaço é de vocês. Usem à vontade!

Grace – Nós que agradecemos todo o apoio e o espaço concedido! À todas as mulheres que estão aí na resistência contra o machismo, a misoginia e o patriarcado no cenário underground, e não só, continuem se organizando mais e mais, seja através de bandas, zines, produtoras, coletivas, por mais difícil que seja, façam ouvir a sua voz, ocupem os espaços, e não se calem jamais!!!

Mih – Somos muito gratas a todo o apoio aqui do União de Mulheres do Underground e a todas as minas que nos acompanham, estarmos juntas, mesmo com visões de mundo e estratégias de luta diferentes, é fundamental pra que a gente alcance a equidade, dentro ou fora da cena!

Links relacionados:

Soundcloud: https://soundcloud.com/klitores-kaos

Bandcamp: https://klitoreskaos.bandcamp.com

YouTube canal: https://www.youtube.com/channel/UCvoYiR4A-earblm3cdJT8yQ

 

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