FAÇA VOCÊ MESMA NA PRÁTICA! Entrevista com Débora Molina (Mácula)

Comanda os graves da banda de blackned crust baiana Mácula, organiza eventos, escreve zine, divulga bandas e ainda faz parte do selo Crust or Die. Tá bom? Tá nada! Pra Debie ainda é pouco. Ela quer que o underground do nordeste se fortaleça ainda mais e que seja criada uma rede de conexões entre os estados que possibilitem um suporte maior para as bandas, zines, organizações… Conversamos, rimos e, principalmente, nos estimulamos com a força que essa mina tem. É só resposta textão, mas é daqueles que a gente ama ler. Confira!

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Foto: Leon Reis

UMU: Como se iniciou o seu interesse por música? E como se deu a sua entrada ao punk/crust?

Déboora: Meu interesse vem desde pequenininha (não que hoje eu seja grande né, mas…). Eu sonhava em tocar piano, o que era impossível, já que não tínhamos grana para aula, muito menos para comprar o instrumento. Mas na minha família algumas pessoas tocavam instrumentos – um dos tios da minha mãe tocava sanfona e violão, e eu achava aquilo fantástico, mas nunca aprendi. Já na família do meu pai, muitos dos meus tios e uma das minhas tias tocavam violão, mas também não tínhamos tanto contato já que meu pai e minha mãe se separaram, logo, me especializei em apenas ouvir e preciar música mesmo. Já o contato com o punk se deu mais pelas propostas políticas do  movimento (principalmente pela ideia do faça você mesmo) do que pela música
em si. Na época eu era aquela menina de escola, ouvia o rock que a 89 fm proporcionava – conheci nirvana por lá e achava “Smell like teen spirit” a coisa mais agressiva que poderia existir, rs, inclusive, graças a umas dessas entrevistas aleatórias do Kurt Cobain que eu descobri que existia algo chamado anarquismo e que aquilo ali era uma coisa  egal. No período eu ganhei de um primo meu, Beto, um K-7 gravada do SUB, eu simplesmente não sabia como lidar com tudo isso, hahahaha.

Foto: DaniNo centro do meu bairro tinha uma biblioteca, e lembro que foi lá que busquei em um dicionário o que se tratava anarquia, e, então, aproveitei os computadores do lugar para entender e buscar o que eram os 10 princípios anarquistas, rs, chega a ser  engraçado… É bem doido pensar sobre isso, pois era algo bem inocente mesmo, mas a ideia de autogestão sempre me fascinou, e aquilo tudo fazia muito sentido para mim, mesmo que, eu não conseguisse entende r muita coisa. Nesse período eu conheci um dos meus melhores amigos, o Ovo (hoje baterista do Dead Cops), morávamos no mesmo bairro e num dia desses de roqueiros adolescentes se encontrando no local mais requisitado do bairro, acabei esbarrando com ele. É engraçado que até hoje me lembro que ele estava vestindo uma camiseta escrita: Riistetyt, e então nos encontrávamos para ouvir Kaaos, Rattüs, e ouviamos MUIIITOOO o Split do força macabra com armagedom ahahahaha, pegávamos emprestado das pessoas para ouvir – acho que deixamos um rombo no cd (desculpe dono do cd hahaha). Na época ele frequentava algumas reuniões do UMP (União do Movimento Punk) que acontecia dentro do Trianon, e então, comecei a acompanha-lo . Nessa período tive contato com zines, uma das coisas mais importantes na minha formação, íamos em alguns encontros e pegávamos o máximo de zines que conseguíamos, lá tive acesso a muito material anarco-feminista, anti-manicomial, anti-especista e um monte de coisas, muitos materiais tenho até hoje (e viva a mídia de papel!). Foi nesse tempo que eu comecei a entender mais o que era a ideia de autonomia e autogestão, e o quanto isso era já algo real na minha vida, já que por ter sido criada apenas pela minha mãe que de um modo ou de outro vivia isso na tora, tudo foi ganhando mais sentido.

Nisso tudo, eu e o Ovo compartilhávamos materiais, ele me emprestava algumas coisas, gravávamos tapes na casa de amigos, íamos nos enfiando em alguns sons, etc… Mas, musicalmente falando, a ideia de que você pode tocar sabendo apenas algumas notas, me encantava, e foi o que, mais para frente, me encorajou a tocar. Tínhamos um amigo que sempre gravava cds para gente, o Ponês, vulgo Maurício que hoje toca na D.E.R,  através dele conhecemos bandas mais interessadas no hardcore, sxe, e íamos quase sempre nas Verduradas, nunca me interessei pela proposta para minha vida, mas achava interessante e gostava mesmo do local e dos eventos. Nesse período, ainda no colegial, eu entrei no meu primeiro emprego, aí então eu pude comprar materiais. Lembro que nessa época muita loja da galeria vendia uns cds piratas, – como os cds eram muito caros, pelo menos para o meu salário era um absurdo, alguns donos de lojas começaram a gravar mídias, imprimir capinhas e vender a réplica por sei lá … 5,00 ou 10,00. Como não tínhamos acesso à internet, isso daí era uma realidade muitoooooo distante de nossa, vivíamos mais de ir em sons do que em conhecer milhares de banda – hoje em dia acontece o contrário né, a galera conhece um monte de banda graças a internet mas não vai em sons. Perto da minha casa tinha um bar que era um antigo bar de forró, hamegos Bar, e lá rolaram muitas bandas fodas. Foi lá que vi o Hellshock, acho que em 2005, e também foi lá que muita coisa aconteceu. A coisa era: o dono vendia cerveja, a galera organizava som e cobrava ingresso, um pouco mais tarde eu organizei algumas coisas por lá com minha antiga banda. Posso dizer que o Edu Chaves teve lá sua importância no underground paulistano, rs. E foi mais ou menos assim que tudo aconteceu e começou a dar sentido no que eu entendo enquanto vida hoje, rs.

UMU: Ouvimos em uma outra entrevista, que você começou a tocar baixo em uma banda sem possuir muito domínio sob o instrumento. Conte um pouco como foi o seu inicio e evolução enquanto baixista.

Débora: Eu comecei a tocar baixo justamente por acreditar no faça vc mesmo. Eu não Foto: Jamile Marquessabia tocar, mas queria. Nessa época, eu já estava mais envolvida em outras coisas. Na verdade, eu desencanei por um período do rolê punk justamente por achar foda ter que lidar com críticas a visual e tudo girar em torno de rebite. Claro, isso não era uma proposta de todo movimento punk, mas quando você é uma moleca tentando se inserir e encontrar seu espaço, lidar com gente que está mais preocupado quantos e quais patches tem na jaqueta, do que num debate real, era muito frustrante. O que mais me chateia é que esse pessoal mais radical saí logo de cena, e graças a um nicho toda uma movida fica com “determinada fama”, enfim… Na época eu já trabalhava e um amigo me indicou outro, que estava vendendo um baixo. Na verdade, o Ovo já estava tocando numa banda e o baixista havia saído, foi então que me chamaram. Comprei o baixo usado (toco com ele até hoje) e uni o útil ao agradável. A proposta musical da minha primeira banda, a “The Wooden Man”, era fazer um som mais para Sonic Youth, o que não exigia muito de mim como baixista, e, eu não queria mais que aquilo no meu baixo, na realidade eu levei a ideia de poder tocar com um sequência mínima de notas por muito tempo.

Uma das figuras que mais me inspiraram a tocar baixo foi a própria Kim Gordon, que também não tem uma linha de baixo muito técnica, mas criou o próprio modo de tocar baixo (coisa que eu realmente adoro, um baixo simples, reto e pesado). A ideia é ensurdecer mesmo e deixar a coisa mais minimalista. Já na Mácula, as linhas de baixo exigem mais. Até hoje não sou muito técnica, na verdade eu nem quero ser, eu gosto de tocar para sentir e não para ser a fodona do baixo. Já teve resenhas dizendo que o baixo é simples, e eu só me pergunto: e porque não? Hoje eu sinto uma necessidade maior com o instrumento, de melhorar, mas eu não quero mudar meu jeito de tocar. Eu gosto bastante do peso que ele dá. Música é como um diálogo: tem diálogo que é preciso falar mais, argumentar, teorizar, tem outros que é melhor só dizer o necessário, e é por aí que eu penso no meu baixo, é por aí que a Mácula dialoga.

UMU: Você é natural de São Paulo, mas está há cerca de 9 anos na Bahia. O nordeste brasileiro e muito rico em bandas seja no metal extremo, como no punk. Como o Mácula é uma banda que transita por esses dois meios, gostaríamos que você falasse um pouco sobre o underground baiano e sobre a posição ideológica da banda. Quais são as maiores dificuldades, quais são os pontos altos, bandas que você destaca…

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Foto: Ju Ornellas

Débora: O underground baiano é muito heterogêneo, e acho que como todo lugar tem seus problemas e contradições. Felizmente a gente transita bastante entre os dois meios, tanto no metal como no punk e disso tiramos ótimos frutos. Claro que há coisas complicadas nessa seara. Por exemplo, lidar atualmente com a alta aquisição à ideias fascistas por parte do público inserido na cena (em boa parte, generalizando) do metal. Essa galera não aparece em sons que organizamos ou tocamos (ao menos não se mostram). Eles sabem que não são bem vindos. A Mácula sempre se posiciona em relação a isso, não é a toa que temos uma música chamada “Nazifascismo Tropical”, que é uma crítica as ideais fascistas que são absurdamente disseminadas no Brasil. Na contrapartida, a cena do metal aqui é muito grande e representativa, tem ótimas bandas e com uma galera muito firmeza. Já o punk é nossa casa! Foi justamente o estar na Bahia que fez me reaproximar com a identidade punk novamente. A galera é foda aqui! Mas as coisas são difíceis pra caralho, os espaços são escassos, há alguns problemas de interação entre algumas pessoas, etc. Aqui tem muita produção boa, mas, infelizmente, as bandas do nordeste e norte brasileiro não têm a mesma atenção que as eixo São Paulo-Rio. Porém há coisa acontecendo, sim. Destaco a banda Escarnium, (apesar de não estarem morando aqui, serão sempre da Bahia) de death metal, que é pra mim, uma das melhores bandas do gênero no Brasil. Tem a Aphorism que lançou esse ano um playzão muito bem elaborado, transitando muito entre o death, crust e o black. A Devouring , que é da cidade onde moramos, que toca um dethão pesado. A Infected Cells, que lançou um som death/thrash, e estão para lançar um material em cd que a Crust or Die está na co-edição. Há uma banda stoner que eu pago muito pau que é a Erasy, de Feira de Santana. Tem uma galera muito massa também do thrash, que é a Unkilled , e o pessoal de Alagoinhas, do Ironbound. Não esquecendo a Suffocation of Soul que tá representando muito bem a  Bahia nas terras estrangeiras. Tem bandas punks como Orelha Seca, Kalmia, Rancor (completa 10 anos esse ano) e a minha outra banda Agnósia. E tem também a galera do grind, a conhecida R.C.E, tem a Asco (tbm completando 10 anos de existência), 288, e por aí vai…

UMU: Apesar de ter uma cena muito rica, conhecemos poucas bandas baianas que contenham mulheres na formação. Como é a participação feminina no underground do estado? As minas estão colando nos shows? Produzindo zines e organizando eventos?

Atualmente, pelo que eu tenho visto e dentro da minha participação no underground baiano, quase não há participação feminina, seja como público, organizando coisas, etc. Claro, há meninas, inclusive, vejo mais meninas quando vou em som de metal do que em punks, mas, em relação ao público masculino, o número ainda é muito ínfimo. Para vocês terem ideia, na resposta acima não incluí uma banda com participação feminina – com exceção da Agnósia que eu toco. Há uma banda só com meninas aqui que se chama Macumba Love, mas parece que estão um pouco paradas por conta de maternidade e outras demandas (não tenho certeza se a informação procede). Tem o coletivo Mosh like a Girl que tem buscado promover algo mais no âmbito do metal. A Bianca no sul da Bahia com o Underground Blasphemme que tá lá na resistência, sozinha, montando um projeto bem brutal que se chama “O interior resiste”, que consiste em divulgar as bandas locais. Inclusive, no ano passado as meninas do Mosh like a girl e a Undergournd Blaphemme lançaram uma coletânea chamada “Mosh like a Blasphemme” em que trazem uma faixa de variadas bandas brasileiras com participação feminina. Em 2012 houve o “Vulva la vida” aqui, foi organizado por uma menina e o festival era bem interessante. Na época não tive como participar, mas foi um movimento legal que aconteceu nessas terras. Acompanhando os relatos de algumas pessoas sobre o sugimento do punk aqui em terras soteropolitanas 1 , descobri que o punk baiano deve muito a Jardelice, que na época, isso lá em meados dos anos 80, montou uma loja chamada Not Dead, local onde os punks começaram a se encontrar e se conhecer. No mais, as meninas aqui tão seguindo, correndo para viabilizar ideias, lidando com a insistência masculina do apagamento de nossas lutas, sim, isso acontece, há quem simplesmente ignora a produção feminina ou até mesmo se apropria dela, rs. A cena soteropolitana é ainda muito masculina, e, aparentemente, muitos caras não se importam com isso, ou quando se importam é aquela coisa: precisamos ouvir as mulheres, incentivar a participação feminina, mas vamos deixa-las falar e ouvi-las até onde nos convém, logo, as deixaremos participar até aqui.

UMU: O Mácula é uma banda bastante citada por blogs e páginas fora do país, no entanto, apesar de já ter realizado algumas tours no sudeste e possuir 8 anos de existência, a galera do Sudeste ainda demonstra surpresa ao ser apresentada ao som de vocês (a reação é sempre positiva). A que você identifica essa invisibilização de bandas que estão situadas fora do eixo Rio-São Paulo?

65949_899990220038902_7019698301001753969_nDébora: Então, eu não sei bem o que acontece. Quando eu morava em São Paulo (isso há uns 9 anos) também sofria desse mal, mas na época internet era meio que outra coisa, completamente diferente do que é hoje. Mas o fato é que realmente somos citados mais lá fora do que aqui dentro, acredito que isso também se deve ao trabalho do Caleb (vocalista da Mácula e meu parceiro na Crust or Die) que sempre teve muito contato com outros selos e distros tanto na América Latina quanto na Europa. No entanto, eu acho que tem alguma coisa aí. Claro que há de se considerar que o público acaba dando mais atenção para aquelas bandas que conseguem ver em shows, logo, tendo uma cena underground maior no sudeste, mas as bandas que conseguem tocar nesse eixo (como as bandas do próprio local) acabam tendo mais destaque. Acredito que isso explica a importância de fazer giras nesse eixo. No entanto, penso também que falta um pouco de atenção por parte do público, de vontade de olhar além do que já tá ali. Eu acho isso muito louco, porque hoje a internet facilita muito a divulgação de bandas, tem muita banda boa por aqui e que se desdobram nisso, que investem em material e lançamento, que procuram vender merchan, mas acaba que ficamos naquele esquema de som: banda que toca para banda – isso em realização da região – ouvimos mais o que se produz aqui do que as pessoas de fora. Há também produtoras que preferem repetir um cast com n participações da mesma banda em determinado festival, ou a mesma banda que toca em todos os festivais, do que buscar algo por aqui, ou pelo norte, e olha que até mesmo as bandas do Sul são meio que esquecidas.

UMU: Conta pra gente um dos momentos/shows/histórias mais marcantes que você viveu com a banda.

Débora: Tivemos tantos, mas eu acho que o mais marcante foi quando decidimos loucamente em ir para Curitiba de ônibus. Nosso baterista (Bal) na época não pode ir e o Caleb falou: lá a gente se vira, rs, e nos viramos. Então fomos eu, Italo e Caleb, 38 horas dentro de um ônibus, com 6 meses de banda e não fazíamos noção de como seria a estrada. Acho que tínhamos cada uns 10 reais no bolso – o que se perdura até hoje hahahaha. Era julho, período de frio extremo, passamos frio, sede, fome, mas chegando em Curitiba tudo ficou ótimo e a gig foi fantástica. Pegamos 3º em Blumenau e eu tive um crise alérgica brutal, estávamos na ocupação Korr-cell e tiveram que chamar a ambulância.

UMU: Além de comandar os graves do Mácula, você possui uma distro/selo, a Crust or Die. Como a ideia de distribuir material físico de bandas independentes se deu? A galera consome bastante material underground por aí?

Débora: Na realidade, a ideia partiu do Caleb. Quando vim morar na Bahia ele já tinha um blog com nome Crust or Die, e, na época, participava de um outro selo com dois amigos, um de São Gonçalo – Rio de Janeiro, Carlos, e outro de Assis – SP, Rafael, o nome era “Tamer of crowns”. Na época eles editaram dois materiais, e estava um pouco complicado manter as coisas pela distância geográfica em que cada um se encontrava. Até que um dia ele conversou comigo e pensou de fazer da crust or die – que até então era um blog de divulgação de bandas em que se podia fazer o download de materiais, em um selo e distro. No início a coisa foi um pouco complicada, mas conseguimos importar muita coisa para distro – sentimos muita saudade de quando o dólar era R$1,60, e começamos a editar alguns materiais no Brasil e de bandas de fora também. Nós não temos muito do que reclamar, tanto o pessoal daqui quanto o pessoal de fora. Compraram e compram bastante material, quando não compram propõem troca, o que para nós é quase a mesma coisa, rs. Então, posso dizer que, sim, tivemos muito apoio por aqui. Claro, não posso afirmar isso em relação a 100 % das pessoas, tem sempre aqueles que não compram material, que não querem pagar entrada em sons, etc etc, mas também temos alguns que sempre nos apoiaram, principalmente o pessoal da região metropolitana e do interior. Por que é isso né, adquirir um material não é dar lucro para nenhum selo, isso que algumas pessoas demoram a entender, mas sim contribuir para que mais materiais sejam editados e produzidos, há um ciclo econômico dentro underground também, as edições de materiais precisam, em algum momento, se auto-pagar.

UMU: Vocês também organizam shows e levam o “Faça você mesmo” como principal bandeira. Em uma época de crise econômica pós golpe, fale um pouco sobre a produção de vocês. Como está a aderência do público baiano?

Débora: Então, um dos maiores problemas atuais para a Crust or Die, tem sido justamente a falta de público que, por conta da falta de grana não pode ir aos eventos, comprar materiais, pois estão desempregados. Há também, claro, parte de público que não aparece porque não se encaixa com a proposta da selo, e também há aqueles que não vão em som algum, rs, (o famoso público facebook). Tem sido um pouco complicado organizar coisas por aqui, já que o aluguel de espaço está bem caro, que além disso solicita também o aluguel de equipamento, tudo isso acaba saindo por um preço alto em que muitas vezes reflete no preço do ingresso. Isso me chateia um pouco, porque para nós não tem muito sentido cobrar mais que R$20 em gigs em que haja apenas bandas locais. Também é muito inviável organizar qualquer coisa em que no final das contas saia do seu bolso (acreditem que já arcamos com isso muitas vezes, principalmente Bal e Caleb que literalmente pagavam para algumas bandas tocar – firmando o compromisso da Crust or Die enquanto coletivo) é uma situação complicada de lidar. A questão público ainda é uma incógnita por aqui. Há gigs que acontece num sábado com entrada por R$10 com bandas de fora e o público não aparece. Mas, de repente, numa terça-feira chuvosa Denis Bar fica lotado porque vai tocar Inforcer (Suécia) pelos mesmo R$10. Sei q que isso acaba acontecendo pelo tipo de público mesmo, em nossos sons tem aparecido muito a galera do metal, e eu acho essa experiência bem legal, pois há uma troca aí, e a coisa fluí bem.

UMU: A Crust or Die está ativa em lançamentos. Qual é o critério que vocês adotam para selecionar bandas para apoiar?

36913532_1834050243326718_8072522377226878976_nDébora: Acho que nunca deixamos de apoiar lançamentos por muito tempo. Mesmo quando estamos sem dinheiro nos apertamos, olhamos um para o outro e dizemos: acho que dá, no fundo não dá, rs, mas … como diz Caleb, somos teimosos, rs. Então, basicamente primeiro nós vemos qual o tipo de ideia a banda quer passar, porque, por mais surreal que pareça, ainda temos que nos preocupar com isso no underground. Apesar de muitas não terem letras com teor fascistas, nacionalista e sexista, muitos dos integrantes tem algum envolvimento com coisas dessa estirpe. Então, sim, procuramos saber quem são as pessoas. Depois, claro, vem o som, editamos mais materiais com a sonoridade punk, crust, metal/punk, blackened, etc, acho que nunca editamos bandas que não gostamos do som, e, claro, vemos se cabe no orçamento, porque nem tudo que queremos editar cabe, infelizmente.

Quais são as 5 bandas nacionais que você mais tem ouvido? O que te despertou a atenção sobre elas?

Débora: Tenho ouvido muita banda com formação feminina, ou integralmente, ou com alguma menina na formação. Claro que isso aconteceu graças ao trabalho do UMU também, conheci muita banda foda. Ouço muito Rastilho – além de ter muita admiração pela Elaine, eu gosto muito do som da banda, pois gosto muito de Wolfbrigade. Outra banda que tenho ouvido bastante também é a banda paulistana Santa Muerte. Eu adoro Crossover, e quando ouvi esse último EP das minas “Psycholic” pirei muito. Não conhecia a banda e me surpreendi com a qualidade do EP, acho que a proposta tá na medida certa que o Crossover a la D.R.I pede. Manger Cadavre? Já tá na minha playlist há um tempo, e eu achei foda o último play da banda “Revide”. O que eu mais gosto da Manger são as letras com bastante embasamento político, e há um trabalho de pesquisa em cima da criação de letras, além de ser um crust que tem um pesão no metal, ou seria um metal que tem um pesão no crust? rs, não sei. Além dessas, tenho ouvido bastante Absent, uma banda de doom/stoner de Brasília, destaque para o play “Towards the Void” e o Nunca de São Paulo, blackened crust, sou suspeita em falar porque gosto muito do estilo (olhemos para a Mácula, afinal, rs) e achei o último cd “Agons” bem bom, eles trazem algo que eu considero muito no Blackened que é justamente pensar uma outra proposta não só sonora para o black metal (misturando com crust) quanto política também.

UMU: Além dos eventos em que você toca ou organiza, dá tempo para comparecer a shows? Destaque o último que mais te impressionou.

Débora: Então, na realidade o que tem me impedido de ir em shows nem tem sido tanto tocar ou organizar eventos, mas a própria distância da minha casa para a capital  Salvador. Assim, não é tão distante, mas a volta para casa é sempre um problema já que os shows terminam no meio da madrugada e não temos como pegar ônibus para voltar para casa. Mas, quero destacar um show que vi esse ano, que foi o show de 10 anos da Escarnium, inclusive um monte da bandas aqui estão fazendo 10 anos nesse ano, rs. Na ocasião, o Victor, que é vocalista e está atualmente morando na Alemanha, veio para o Brasil por conta da Detronation (Alemanha) que estava fazendo uma tour por aqui. Showzão. A Detronation é uma ótima banda, mas Escarnium é Escarnium e foi muito foda!

Acabou o interrogatório! rs. Agradecemos muito a sua atenção, além de parabenizar por toda a sua atividade. Tenha certeza que você é uma das minas que mantém a cena brasileira viva e com qualidade! Esse espaço é seu, use-o para deixar a mensagem que quiser.

Débora: Quero agradecer a vocês, mais uma vez, pelo espaço oferecido aqui e pelo apoio de sempre. O trabalho da página “União das mulheres do underground” está sendo revolucionário, acreditem! É possível sim fazer certa revolução na Web, é só saber como usar e vocês estão não só mostrando como também nos incentivando a fazer algo.  Obrigada. Quero também dizer que todos nós fazemos parte da cena underground e que podemos sim, dentro de uma noção de apoio mútuo e respeito, fazer muito mais coisas – juntos ou separados, tanto faz, mas façam algo! Incentivem a sua cena local: compareçam em sons, comprem materiais de selos independentes, apoie as meninas no underground.

No mais quero deixar alguns links:

Mácula – https://macula.bandcamp.com/
Crust or Die – https://www.facebook.com/CrustordieCollective/
Underground Blasfemme – https://www.facebook.com/ugblasfemme/
Mosh like a girl: https://www.facebook.com/coletivomoshlikeagirl/

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